Ao longo da tarde de ontem, enquanto trabalhava, fui recebendo alertas noticiosos sobre o debate do estado da Nação. Quase todos sobre aquilo que designo de pontuação artística da política.

As provocações de André Ventura a António Costa e as respostas deste. E o gesto magnânimo de António Costa a Rui Rio, pouco comum em alguém que não tem entre as suas maiores qualidades grande gentileza para com os adversários. Se o Primeiro Ministro tivesse tratado Rui Rio, enquanto este foi líder do PSD, com uma pequena parte da consideração que lhe manifestou na hora da despedida talvez o país pudesse ter tido a oportunidade de fazer algumas das tais reformas que exigem consensos entre os principais partidos. Há muito para criticar na forma como Rui Rio fazia oposição, mas sempre lhe elogiei a disponibilidade única para compromissos e consensos com o governo. Isso é praticamente inexistente na nossa cultura política e Rui Rio merecia mais reconhecimento por ter sido o único líder de oposição que alguma vez demonstrou abertura para grandes consensos com um governo em funções. Foi pena, o Primeiro-ministro, e em consequência o país, não terem tirado proveito disso. Espero que António Costa tenha sido genuíno no reconhecimento que agora expressou a Rui Rio e o demonstre na forma como tratará o novo líder do PSD, em vez de se ter tratado de um simples número político: um discurso de enorme gentileza para com o anterior líder da oposição para contrastar com o discurso duro que lhe foi dirigido ontem pelo novo líder da oposição...

Seja como for, mediaticamente este pareceu mais um debate sobre o estado dos nossos políticos que um debate sobre o Estado da Nação e isso não diz bem do estado democrático da nação. Não é por acaso aliás que, pelo segundo ano consecutivo, a avaliação internacional da qualidade da nossa democracia é negativa. Fomos novamente classificados como uma democracia com falhas, sem ser uma democracia plena como a maioria dos Estados europeus.

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Claro que houve espaço para discutir o contexto difícil, interno e externo, que atravessamos e a forma como devemos responder a esses desafios. Mas, sem pretender desvalorizar a enorme emergência que enfrentamos, não posso deixar de manifestar profunda frustração com o contínuo silêncio sobre o que fazer perante os enormes problemas e desafios estruturais que enfrentamos.

Como notava ontem o João Miguel Tavares o Primeiro Ministro tornou-se mestre em imputar todos os problemas que temos a causas estruturais ao mesmo tempo que defende que não necessitamos de nenhuma reforma estrutural... Este paradoxo só tem uma explicação. O PM limita a ambição do país à preservação do status quo. A sua função é assegurar que "lá se vai andando com a cabeça entre as orelhas"... Não ficar sem cabeça é um bom objetivo, mas não pode ser o único objetivo. Devíamos permitir à cabeça sonhar e agir para concretizar alguns desses sonhos. Parece que a ambição do Primeiro-ministro se esgota em evitar uma catástrofe imediata, mas não faz nada para impedir o nosso continuo empobrecimento relativo e, ainda menos, para o inverter.

O estado (e não a mera conjuntura) da nação é este:

Um país economicamente estagnado há quase 25 anos.

Mais pobres (com uma queda do PIB per capita, face ao resto da União Europeia, nos últimos 7 anos).

Mais desiguais. Num dos países já mais desiguais da Europa, as desigualdades agravaram-se após a pandemia e diminui a mobilidade social.

Infelizmente, no entanto, não apenas estamos mal como o futuro antecipa maiores problemas. E não falo da inflação e austeridade deste ano ou dos riscos acrescidos de crise económica e financeira nos tempos mais próximos. Falo do futuro a 10 anos e daquilo de que depende o frágil Estado social que ainda temos. As terríveis previsões da evolução demográfica do nosso país confrontam-nos com um desafio ainda maior do que aqueles que trazemos do passado. Os estudos (incluindo dois que organizámos no âmbito do Fórum Futuro da Fundação Gulbenkian) são claros: o número de portugueses em idade ativa (aqueles em idade contributiva para o Estado social) irá cair de forma acentuada nos próximos anos. Isto significará menos receitas para sustentar o Estado social em todas as suas dimensões, mas também mais despesas, uma vez que iremos viver, felizmente, cada vez mais tempo. Há uma parte boa nisto (vivermos mais tempo e com mais ócio), mas teremos grande dificuldade em a suportar com menos pessoas em idade ativa a trabalhar. Sendo menos, para crescermos mais e fazermos face a mais despesas necessitamos de três coisas: primeiro, fazer mais com menos pessoas (ou seja, crescer através de um aumento da produtividade); segundo, atrair mais pessoas (com políticas de natalidade e de imigração mais eficazes); terceiro, diversificar a gestão e fontes de financiamento do nosso Estado social. Sobre isto - esta condição em que se arrisca perpetuar o estado da nação - pouco se discute. Falta do noção do verdadeiro estado da nação.

QOSHE - A falta de noção do Estado da Nação - Miguel Poiares Maduro
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A falta de noção do Estado da Nação

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21.07.2022

Ao longo da tarde de ontem, enquanto trabalhava, fui recebendo alertas noticiosos sobre o debate do estado da Nação. Quase todos sobre aquilo que designo de pontuação artística da política.

As provocações de André Ventura a António Costa e as respostas deste. E o gesto magnânimo de António Costa a Rui Rio, pouco comum em alguém que não tem entre as suas maiores qualidades grande gentileza para com os adversários. Se o Primeiro Ministro tivesse tratado Rui Rio, enquanto este foi líder do PSD, com uma pequena parte da consideração que lhe manifestou na hora da despedida talvez o país pudesse ter tido a oportunidade de fazer algumas das tais reformas que exigem consensos entre os principais partidos. Há muito para criticar na forma como Rui Rio fazia oposição, mas sempre lhe elogiei a disponibilidade única para compromissos e consensos com o governo. Isso é praticamente inexistente na nossa cultura política e Rui Rio merecia mais reconhecimento por ter sido o único líder de oposição que alguma vez demonstrou abertura para grandes consensos com um governo em funções. Foi pena, o Primeiro-ministro, e em consequência o país, não terem tirado proveito disso. Espero que António Costa tenha sido genuíno no reconhecimento que agora expressou a Rui Rio e o demonstre na........

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