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Emails mostram que governo Trump ameaçou pesquisadores que questionaram fraude na Bolívia

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13.05.2021

UM ADVOGADO do Departamento de Justiça dos Estados Unidos contatou repetidamente pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, perguntando – por vezes, sob ameaça de intimação – sobre um estudo que haviam feito sobre a eleição presidencial boliviana de 2019. É o que mostram emails obtidos pelo Intercept. Enviados entre outubro de 2020 e janeiro de 2021, os emails apontam para a existência de um inquérito do Departamento de Justiça e somam novas evidências para apoiar as alegações bolivianas de que os EUA estavam envolvidos no golpe ocorrido no país sul-americano em 2019.

Os emails revelam o envolvimento, não noticiado anteriormente, do Departamento de Justiça dos EUA na investigação criminal do regime golpista boliviano que buscava comprovar uma suposta fraude eleitoral. O inquérito teve como alvo dois pesquisadores respeitados do MIT e questionava seu trabalho feito para o Centro de Política Econômica e Pesquisa, no qual eles refutaram amplamente as suspeitas de que o partido socialista da Bolívia havia fraudado a eleição.

O regime golpista, que durou pouco, chegou ao poder seguindo um roteiro claro: nas semanas que antecederam a eleição presidencial em outubro de 2019, a oposição encheu as redes sociais e televisão de propagandas intermináveis alertando que o então presidente Evo Morales se valeria de fraudes generalizadas para ganhar a reeleição. Morales foi o primeiro presidente indígena eleito na Bolívia, em 2005, à frente do seu partido Movimento ao Socialismo, o MAS, e em 2019 estava concorrendo ao quarto mandato. Ele enfrentou intensa oposição, muitas vezes estruturada em termos explicitamente racistas, vinda de uma coalizão Frankenstein de bolivianos conservadores de ascendência europeia e apoiadores do ex-presidente Carlos Mesa, um antigo membro do partido revolucionário de esquerda da Bolívia, que depois se tornou hostil ao governo social-democrata de Evo Morales.

Conforme os votos eram contados na noite da eleição de 2019, Morales estava à frente, como esperado. A questão era se ele venceria por margem suficiente para evitar um segundo turno, que na Bolívia só acontece se um candidato vence o primeiro turno por margem inferior a 10 pontos percentuais. Em uma contagem não oficial, Morales estava à frente de Mesa por 7,9 pontos, dando à oposição a esperança de um segundo turno. Mas, quando a contagem oficial foi divulgada, Evo tinha vencido por 10,6 pontos. Com isso, não haveria segundo turno.

Sem evidências, a oposição imediatamente levantou acusações de fraude. E foi apoiada no dia seguinte pela Organização dos Estados Americanos, a OEA, a poderosa organização de cooperação pan-americana sediada em Washington, D.C.

“A Missão da OEA expressa sua profunda preocupação e surpresa com a mudança drástica e difícil de explicar na tendência dos resultados preliminares revelados após o fechamento das urnas”, dizia a incendiária declaração da OEA. Manifestantes foram às ruas; os militares pediram que Evo Morales renunciasse; e a oposição instalou uma nova líder, Jeanine Áñez, após três semanas de agitação. Muito à direita de Carlos Mesa, Áñez assumiu o cargo e rapidamente buscou eliminar o sentimento de emancipação dos povos indígenas que o governo Evo havia trazido. Enquanto 14 dos 16 membros do gabinete de Morales eram de origem indígena, Áñez não indicou um único indígena para o seu primeiro Ministério. Nos dois meses anteriores à posse, ela tuitou que Evo era um “índio pobre” e deu a entender que os indígenas não podem usar sapatos. Ao chegar à presidência, ela declarou que “a Bíblia voltou ao palácio”.

A ex-presidenta interina da Bolívia, Jeanine Áñez, é escoltada em La Paz por membros da Força Especial de Combate ao Crime após ser presa, em 13 de março de 2021.

Foto: Aizar Raldes/AFP via Getty Images

O golpe, praticamente seguindo o........

© The Intercept


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