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A crise da água no Rio de Janeiro é a necropolítica pela torneira

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21.01.2020

A necropolítica não acontece só quando o governador Wilson Witzel diz que é para atirar na cabecinha das pessoas. Ela também está saindo da torneira dos cariocas em forma de água com cor diferente, gosto estranho e cheiro esquisito – bem longe de ser inodora, insípida ou incolor, como aprendemos na escola. A crise da água é mais uma face da política da morte – e o Rio de Janeiro é seu grande laboratório. É mais fácil enxergar a necropolítica em ação quando pensamos em snipers atirando a esmo nas favelas, mas a gestão da morte também acontece quando o estado sucateia um serviço que garante um direito universal: o acesso à água.

O conceito de necropolítica, criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe em 2006, se baseia na premissa de que o estado pode decidir quem vai viver e quem vai morrer. Essa teoria explica o Brasil desde o período colonial, quando pessoas eram escravizadas e torturadas para satisfazer outras por causa de sua raça, e se mantém até hoje. A necropolítica acontece, por exemplo, quando o estado define qual região recebe ou não determinada política pública – o que acaba determinando quem tem mais chances de morrer. Essa escolha também cria uma condição de quase morte, deixando as pessoas inertes para que não tenham forças para se rebelar contra o inaceitável – o que responde aos que questionam por que o carioca não tomou as ruas depois de semanas de água suja saindo das torneiras.

Os problemas com a água no estado, assim como a necropolítica do governo, não são novidade. A poluição por esgoto doméstico e industrial na Bacia do Guandu, de onde vem a nossa água, é caso antigo e a discussão sobre a privatização da........

© The Intercept