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Entre a cloroquina e o namastê: conheça a direita gratiluz

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04.05.2021

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Getty Images/iStockphoto

Escrevi há algumas semanas sobre um tipo típico do Brasil bolsonarista: o macho desgovernado, boy que acha bonito ser troglodita, urrar platitudes e postar tudo nas redes. Mas neste país de porteiras abertas para várias boiadas, o MD, é claro, não está sozinho: ele tem a companhia de outra cepa interessantíssima de persona, aquela que aqui chamarei de direita gratiluz, uma personalidade guarda-chuva que abriga outras várias individualidades, a exemplo do médico cloroquiner vegano, o artista consciente e elitista, a deusa New Age olavista, o liberal anti-máscara, etc.

Apesar de algumas sensíveis distinções, são muitas as características que os unem: jamais se pensam como conservadores e/ou retrógrados; não se percebem classistas; se apresentam como defensores da liberdade e do livre-arbítrio e como pessoas cansadas da política, muito “anti-sistema” e que não estão “nem à direita, nem à esquerda”. Amam a natureza, curtem uma boa vibração astral e não defendem ideologias. Pensam, antes de tudo, no “ser humano” (ainda que, em nome da “liberdade” de não usar máscara, possam infectar alguém com o coronavírus).

Durante algumas semanas, naveguei por perfis da direita gratiluz no Instagram, Facebook e YouTube. Acompanhei palestras, vi algumas entrevistas, li trechos de livros. Em diversos momentos, senti real inveja das colegas do Intercept que estão investigando, por exemplo, o Cara da Casa de Vidro e os milicianos do Escritório do Crime. Isso porque encontrar sentido nas sinapses de boa parte da DG é quase um espancamento cerebral: elas reúnem em um mesmo balaio o arcanjo Miguel, o poder do gengibre, os espíritos obsessivos em Brasília, a gratidão, o amor, Deus, o xamanismo de boutique, a filosofia quântica, a holística, a bioenergética, o Mal (geralmente, o “Comunismo”), o Bem (geralmente, a Família e a Ética), a barra de access, a trilha na mata, o retiro, a respiração profunda, a “medicina transfeminista”, o poder dos cristais, os Espíritos, o Exu Veludo.

Há também nesse balaio um tanto de arrogância e de superioridade moral por parte de gurus e seguidores.

Navegando nessa deep web que por pouco não queimou meu computador, cheguei a um dos representantes desse nicho, o escritor, terapeuta e médium Robson Pinheiro, autor, entre outras obras, da trilogia “A política das sombras”, composta pelos livros “A quadrilha: o Foro de São Paulo” e “O partido”. Lançada em 2016, no mesmo ano do impeachment de Dilma Rousseff (informação que consta no material sobre os livros na internet), a trilogia é bastante famosa entre os seguidores de Pinheiro.

Ele e Marcos Leão são os coordenadores do projeto chamado Guardiões da Humanidade, espaço no qual você pode fazer uma iniciação cósmica e se preparar para trabalhar com os Agentes da Justiça Divina: para isso, basta se inscrever gratuitamente no curso e, ao indicar amigos para realizar a modalidade Premium, você passa a ser remunerado – sim, é o velho esquema da pirâmide. “Este é um chamado para os homens de bem”, diz Pinheiro, em um vídeo de longos 16 minutos nos quais, antes de nos convidar para ganharmos uma grana enquanto alcançamos a plenitude do ser, ele critica o consumismo, o capitalismo e a vida moderna.

Além de “homens de bem”, outros termos também comuns à cavalaria conservadora bolsonarista e à grã-ordem lavajatista aparecem em falas do médium que escreve através do espírito de Angelo Inácio e de outros desencarnados mais célebres, como o ex-presidente Tancredo Neves (1910-1985) e o jornalista José do Patrocínio (1853-1905).

No canal que mantém no YouTube, com 139 mil inscritos, Pinheiro, poucos dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais de........

© The Intercept


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