Da origem do caos presente

O mundo está um completo caos. Os EUA são governados por selvagens que não hesitam em afirmar que se que regozijam com a morte dos seus adversários; as políticas que praticam são de uma incompetência que ultrapassa o entendimento de uma pessoa mediamente informada.

Como se chegou a este estado de coisas é, parece-me, um processo que pode ser descrito. A descrição não será completa, sem dúvida, mas espero que não esteja completamente errada. Há três elementos que me parece deverem ser analisados. São eles as identidades, uma inversão sociológica inesperada e o próprio caos.

Todas as culturas assentam num conjunto de identidades que interagem entre si. Essa interacção pode ser pacífica –o que é raro – ou determinada coercivamente, mas tem de existir ou a sociedade cai na anomia.

A ideia democrática e republicana assenta na ideia de igualdade não exactamente de posses ou de poder, mas de direitos, oportunidades, e de dignidade da pessoa. Acontece que qualquer sociedade que não viva acima do limiar de subsistência desenvolverá diferenças que se tornarão, progressivamente, linhagens dividindo privilegiados e não privilegiados.

No passado, cada ‘ordem’ (clero, nobreza, terceiro estado) tinha uma identidade: dentro do terceiro estado havia, de resto várias identidades diferentes – os letrados, os artesãos, os comerciantes, os camponeses, estando alguns dos grupos destes últimos no grau mais baixo da escala. Claro que não havia camponeses famintos contentes com a sua sorte, mas havia letrados, comerciantes, artesãos com uma identidade clara e com um sentido de vida bem definido – e é deste grupo que descende a classe dominante presente.

As diferenças sociais e de poder entre as ordens eram enormes e isso levou à revogação do sistema: o pensamento do Séc. XVII levou, precisamente, à questionação da aceitabilidade de uma diferença ontológica entre grupos sociais (isto é, que a ‘qualidade’, ou a ‘substância’ das pessoas fosse diferente consoante a ordem a que pertenciam). É daí que vem o ideal republicano.

Contudo, abolir as diferenças ontológicas e declarar que as pessoas são iguais em direitos não implica que sejam iguais em poder ou em estatuto.

Nos regimes republicanos houve sempre enormes diferenças, agora justificadas já não pelo nascimento mas pela ideia de trabalho e mérito que, por via do sistema de heranças, voltou a manter as diferenças ligadas ao nascimento. Ou seja, em vez de ‘ordens’ passou a haver ‘classes sociais’, definidas pelo que ganham.

Os vários socialismos e, particularmente, o comunismo tentaram abolir essa hierarquia mas, como é invariável nas sociedades complexas, não o conseguiram. Na Europa, e até certo ponto nos vários países ocidentalizados, o crescimento económico dos anos 60 escondeu a realidade das diferenças: havia, por um lado, uma progressiva melhoria das condições de vida e, por outro, boas perspectivas de ascensão social das sucessivas gerações (ou seja, os pais das classes médias baixas esperavam, além de melhorias salariais para eles próprios, que os filhos tivessem um estatuto mais elevado do que o deles).

A impossibilidade de defesa dos valores tradicionais, envenenados por Hitler, levou progressivamente à ideia de que a cooperação e a coesão sociais resultassem exclusivamente do crescimento económico. Em qualquer caso, desapareceu um dos aspectos mais estruturantes da sociedade: a identidade, o saber quem se é na comunidade e sociedade em que se vive. Sendo todos iguais em direitos, não há identidade além do país em que se nasceu, do clube que se apoia, da profissão que se tem. Há profissões de estatuto mais elevado do que outras, mas a ideia – e a esperança, pelo menos entre os cidadãos menos favorecidos – foi sempre que a ascensão social das sucessivas gerações resolveria o problema.

Sabemos agora que não é assim. Os filhos podem esperar um nível de vida inferior ao dos pais. Além de que, se todos, numa sociedade, subirem para profissões de maior prestígio, deixará de haver quem preencha as outras – e daí, em parte, a questão da imigração. Naturalmente que uma perspectiva de futuro pior e a presença de imigrantes dificilmente assimiláveis (ou simplesmente de aspecto diferente) cria conflitos de identidade, por mais que se queira negar o que é evidente nos estudos etnográficos e históricos.

Mas o aspecto mais relevante é que a identidade, anteriormente ontológica, passou a ser definida pela ‘classe social’ ou pela ‘classe sócio-profissional’. Ou seja, a ‘substância’ de cada um é igual, mas os rendimentos não o são.

O que define principalmente a identidade e o estatuto de uma pessoa passou a ser o que ela ganha; e o que ela ganha tem que ver, em boa parte, com o fundo cultural da família em que nasceu: nascer numa família de médicos, de juristas, de professores universitários, representa uma enorme vantagem quer cultural, quer económica, quer mesmo uma vantagem nas oportunidades proveniente das redes de conhecimentos nos círculos mais bem pagos. Isto é, o sucesso é estreitamente dependente da formação académica que se teve, a formação académica que se teve depende, em grande medida, daquela que os pais tiveram e as boas oportunidades, já muito maiores do que as da restante população, das relações que os pais mantêm.

Assim, ainda que haja mobilidade social, o antigo sistema de ‘ordens’ perpetua-se, mesmo que atenuado. Na medida em que esta situação é sentida como injusta – e forçosamente o será– e num contexto em que a esperança de melhoria salarial devida ao crescimento da economia desapareceu seguir-se-á uma revolta, primeiro surda, depois progressivamente mais vocal e agente.

Assentemos então: no mundo moderno há classes económico-profissionais que se perpetuam, há vencedores e perdedores, e o sucesso depende, em grande parte, da educação recebida, dependente, por seu turno, da classe social dos pais.

 INVERSÃO SOCIOLÓGICA

No passado, as classes desfavorecidas eram defendidas pela ‘esquerda’ e as possidentes pela ‘direita’. Agora as coisas inverteram-se: os partidos populistas, ditos de direita, são populares e representam os ‘deserdados’ do sistema: as pessoas que se sentem ignoradas, violadas nos seus valores, ofendidas e desprezadas pelas classes poderosas.

Ora, e este aspecto é importante, as classes poderosas deixaram de defender ‘o povo’. O paradoxo é que as classes desfavorecidas que votam populista deveriam ser as classes que a esquerda representa. Não são. Quem representa, então, a esquerda?

Disse, acima, que há uma clivagem social que tem que ver com as profissões e que essa clivagem tem que ver com a educação que se recebeu. E sabe-se que os populistas têm um nível de escolaridade inferior aos partidos mais ‘avançados socialmente’, isto é, que defendem valores mais libertários, moral e economicamente. A maioria dos partidos de esquerda (o PC é uma excepção, entre nós) alinhou com a mundialização da economia (é o sistema vigente), incluindo a deslocalização das indústrias, e vê-se como um escol intelectual, a tal ponto que fica mal a quem quer parecer pertencer a esse escol não se dizer de esquerda: é um dos ‘componentes do uniforme’.

Sabe-se que a esquerda dominou as universidades durante tanto tempo que uma formação universitária determina a aceitação de uma série de pressupostos ‘avançados’: socialismo, feminismo, desejabilidade da imigração, aprovação da homossexualidade, até mesmo do transexualismo. Um outro factor – este não de esquerda, mas concorrente com ela –, também proveniente das universidades, vem dos cursos de economia em que há, além de tudo isso, que faz parte do credo ultra-individualista intrínseco ao neo-liberalismo, uma crença no mercado como único factor a levar em consideração na determinação do bem-estar de uma sociedade.

Em tudo isso o binómio esquerda ‘avançada’ e neo-liberalismo discorda do ‘povo’, dos que não foram formatados pela universidade. E, mais, como a esquerda, mesmo a mais extrema, acabou por abraçar, por necessidade pragmática, o liberalismo económico, deixou de representar as classes desfavorecidas. Como se sabe, inventou outras, como as minorias raciais ou sexuais, mas deixou de representar a sua base de origem; pelo contrário, essa base repugna-lhe por ser ‘primitiva’, ‘retrógrada’, ‘reaccionária’, ‘grosseira’, já que não se reconhece no permissivismo cosmopolita das classes mais bem instaladas.

Ou seja, a junção da esquerda e do neo-liberalismo passou a representar quem está no poder, quem tem mais escolaridade, quem tem mais conexões, quem está e permanece no topo social. O ‘povo’ deixou de se sentir representado.

Numa democracia, o vazio de representatividade nunca dura muito tempo, e apareceram os partidos ‘populistas’, que se diz serem de extrema-direita quer o sejam ou não. Esses partidos tendem a representar uma reacção à falta de atenção, ao sentimento de ‘identidade traída e desprezada’, e também uma reacção negativa aos novos ‘grupos a defender’, as ‘minorias’ que, no passado, não eram consideradas importantes e que agora as classes que não foram formatadas pela universidade não aprovam e sentem estar a substituir o seu papel.

Há então uma inversão de papeis da esquerda e da direita? Sem dúvida. A esquerda apoia-se nos universitários, nas pessoas bem-pensantes, cosmopolitas, que leem os romances e vêm os filmes premiados pela nova ideologia dominante e que transmitem essa mesma ideologia. A direita populista apoia-se nos novos deserdados, defende valores tradicionais, escolhe bodes-expiatórios nos imigrantes, e substitui, de facto, a esquerda passada.

Em Portugal isso foi extremamente óbvio: houve uma grande transferência do PC para o Chega. (E acrescento uma nota para explicar que embora o PS se apoie também num eleitorado pouco instruído, isso se deve à política de subsídios e de compra de votos que praticou durante muito tempo).

O último fator resulta, em boa parte, destes dois anteriores: destruição das identidades tradicionais, identidades determinadas pelos rendimentos e pela formatação de quem lhes acede, frustração de quem não acede aos grupos dominantes nem pertencem ao mundo das profissões que requerem altas qualificações.

Se a esquerda governa, o ‘povo’ sente-se traído e faz crescer partidos cujo programa não compreende mas que sente representar a sua raiva. Em qualquer caso, os programas dos partidos tradicionais ‘do arco da governação’ são, economicamente, do mesmo tipo, aceitando o neo-liberalismo como a melhor maneira de gerar PIBs elevados e ignorando que um PIB não correlaciona com boa redistribuição de rendimentos. Mais, os partidos de esquerda, presos a promessas demagógicas do passado (no fundo, mais ajudas do governo, reformas mais cedo, boa assistência social), não podem cumprir o prometido e tentam, fugindo para a frente, fazer reformas mais liberais para que o PIB cresça na ilusão de que a riqueza será redistribuída pelas forças de mercado.

Mas se as direitas populistas governarem há três hipóteses. Ou se transformam em mais do mesmo, já que compreendem que estão económica e socialmente num beco sem saída, mas com uma retórica diferente que acabará por deixar de convencer (Meloni é um bom exemplo no presente, Heider, em menor grau, foi-o no passado). Ou, se tiverem um apoio inequívoco da população e forem políticos hábeis e firmes, conseguem firmar-se (o melhor exemplo tem sido o de Orbán). Por fim, se forem tão inarticulados politicamente como os que os elegeram, gerarão o caos total: é o caso de Trump e da sua equipa, como agora se vê com apreensão crescente.

Em qualquer caso, o mundo mergulhará no caos. O sistema económico europeu está esgotado: Bretton Woods seguido da desindexação do dólar relativamente ao ouro, a crise do petróleo, o neo-liberalismo e a deslocalização das indústrias, a necessidade de imigração por uma natalidade insuficiente e por falta de braços nativos para os trabalhos mais penosos levaram-nos ao beco sem saída económico. Quanto ao sistema moral ocidental, já nem existe: como referi, Hitler contaminou os valores tradicionais e a tentativa de manter satisfeitas as populações com salários a crescer não só falhou como esvaziou qualquer identidade que as ‘classes’ pudessem ter.

Não sei o que se seguirá ao presente. Mas creio que estamos em crise terminal de civilização. Não um ‘fim do Império Romano’ mas pode ser um ‘1789’ ou um ‘1917’. E, no momento em que escrevo, não sei o que se passará com a guerra do Irão.


© SOL