Às duas da manhã

A luz do telefone é a mais honesta de todas. Não há nela a intenção de iluminar: é apenas o brilho de uma janela aberta para um sítio onde tudo está disponível e nada pesa.

São duas da manhã e o resto da casa dorme. Ela compra um descascador de abacates por 0,99€. Não tem abacates em casa e não se lembra da última vez que comeu um. Mas o preço tem uma qualidade quase medicinal e o gesto - esse deslizar do polegar, o clique suave - resolve qualquer coisa que o dia deixou por resolver. Não sabe bem o quê, mas também não pergunta.

A encomenda chega em 48 horas e fica numa gaveta.

A dois quilómetros dali, num apartamento mais pequeno, ele também está acordado. Três filhos. O mais novo ainda não dorme a noite toda. A conta do supermercado........

© SOL