As responsabilidades não se devolvem, assumem-se

No passado dia 5 de março, Cascais abriu o ano na condição de Capital Europeia da Democracia. É o reconhecimento de uma cultura de governação construída com consistência e elevada exigência, onde a participação dos cidadãos tem peso real nas decisões políticas.

As eleições de outubro de 2025 trouxeram, em vários municípios portugueses, um resultado que merece reflexão. Os eleitores afirmaram, através do seu voto, que querem uma representação diversificada. Votaram para ter mais vozes à mesa, mais responsabilidade partilhada e menos poder concentrado.

Este resultado exige maturidade política. Exige que os eleitos coloquem os interesses de quem representam acima das conveniências dos partidos. Por esse motivo, a composição dos executivos deve refletir, tanto quanto possível, a vontade expressa nas urnas. Trata-se, essencialmente, de honrar um princípio de coerência democrática. Governar bem começa por respeitar as escolhas dos eleitores.

Nem sempre é assim. Há quem não aceite responsabilidades e quem as aceite e depois as “devolva” quando se tornam exigentes. Há quem prefira a contestação permanente à construção conjunta. Em qualquer um dos casos, o que fica em segundo plano são os cidadãos, independentemente de em quem votaram.

Porque para quem governa com seriedade, a confiança não é a etapa final. É o ponto de partida. Para liderar uma comunidade, exige-se confiança nos que colaboram, nos que discordam e no julgamento de quem vota. Numa palavra, a confiança não tem cor política; por isso, um Vereador com Pelouros não perde independência, ganha responsabilidade real e capacidade concreta de transformar a vida dos munícipes que o elegeram.

O mundo está a mudar. A democracia que resiste e que prospera é a que consegue transformar o pluralismo em força e não em paralisia. Enquanto a lei eleitoral autárquica não for revista, colocando nos deputados à Assembleia Municipal a responsabilidade de formarem o Executivo, exige-se aos representantes que estejam dispostos a colocar os interesses da comunidade acima das conveniências partidárias, em especial quando o contexto é exigente e as decisões têm peso.

Uma Capital Europeia da Democracia não se preserva com discursos. Preserva-se com atos. Com a porta aberta e a agenda focada no que importa: servir os cidadãos com exigência, com integridade e com a clareza de quem sabe que as responsabilidades não se devolvem. Assumem-se.


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