O eterno bom malandro

Partiu Mário Zambujal, o teu 3º Mário.

Há pessoas que escrevem livros. E depois há pessoas como Mário Zambujal, que escreviam livros como quem conta histórias à mesa de café, entre uma bica e uma gargalhada. Nos livros dele, suspeita-se sempre que o narrador está a piscar o olho ao leitor – e, se não está, devia estar.

Como tantos bons contadores de histórias portugueses, começou no território do jornalismo, onde as palavras são curtas, os prazos são cruéis e os chefes de redação acreditam que “mais depressa” é um estilo literário. Precisamente onde o conheceste.

Os seus livros são uma mistura de ironia elegante, observação afiada e aquela arte portuguesa de rir de tudo – especialmente de nós próprios. Características tão semelhantes às tuas. 

Creio que o verdadeiro salto literário se deu com o romance “Crónica dos Bons Malandros”. Um livro que prova duas coisas: que os malandros portugueses podem ser encantadores e que um assalto pode ser descrito com mais humor do que muitos jantares de família.

Depois veio a televisão, esse palco onde muitos perdem a graça e poucos a encontram. Como não podia deixar de ser, Zambujal encontrou-a. 

Tal como na rádio, onde apresentou programas de entrevistas e conversa tranquila. Nada de gritaria televisiva, nada de polémicas fabricadas. Simplesmente alguém a conversar com inteligência e humor. 

Ao longo da vida publicou romances, crónicas e histórias onde o humor nunca era gratuito. Nos seus livros aparecem personagens muito portuguesas: pequenos vigaristas simpáticos, conspiradores pouco organizados, gente que quer ser séria, mas não consegue evitar meter-se em sarilhos.

Em suma: personagens que podiam perfeitamente estar na mesa ao lado no café.

Quando um escritor morre, há sempre quem diga que “fica a obra”.

Neste caso, fica sobretudo essa arte difícil: levar a vida a sério sem nunca perder o sentido de humor.

E isso, em Portugal, é quase uma filosofia nacional.

Estou desolada! Como bem disseste, perdi o meu 3º Mário.  Morreu o meu amigo, perdemos um contador de histórias.

Se queres que te diga, nem sei quando conheci o Mário Zambujal. Estava sempre a dizer que ainda me viu de soquetes (sabes o que isso era? Meias muito curtinhas, peúgas, uma coisa assim, que as miúdas usavam) no Diário de Lisboa.

É mentira. Eu tinha 18 anos quando entrei para o DL, e já não usava soquetes. O humor sempre foi uma das suas melhores características.

A sua obra e olhar crítico enriqueceram profundamente o panorama literário e jornalístico do nosso país.

O seu talento singular para observar a sociedade com humor, inteligência e sensibilidade marcou gerações e deixou uma contribuição inesquecível para a nossa Cultura.

Será sempre recordado como um cidadão comprometido, um cronista perspicaz e um exemplo de criatividade e humanidade.

Os seus livros tornaram-se em clássicos modernos, daqueles que passam de geração em geração com a recomendação:

«Lê isto. Vais ver que Portugal também sabe rir».

Um dia, num jantar com amigos e família, para apresentação do meu segundo marido (de seu nome Mário, tal como o primeiro, como tu muito bem sabes) ele quis fazer discurso… Lá disse o que lhe apeteceu e, no final rematou: «e olha Mário, só te quero dizer mais uma coisa: eu só não ta roubo porque, arre porra, três Mários era demais». Só mesmo o Mário…

Zambujal tinha aquele talento raro: parecia que não estava a fazer esforço nenhum. O que, naturalmente, significa que estava a fazer um esforço tremendo – mas com elegância suficiente para ninguém notar.

Se algum dia encontrarmos no céu um grupo de anjos a planear um assalto mal-organizado, é provável que alguém esteja lá a tomar notas para um romance.

E é muito possível que esse alguém seja o Zambujal – a sorrir, claro, porque a vida, afinal, é uma história demasiado estranha para ser contada sem humor.


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