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O envelope gasto

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Espero que o teu aniversário tenha corrido bem. Que seja um ano repleto de saúde, acima de tudo. Temos muito para fazer, como sabes. És um exemplo para tantas pessoas. Os teus livros mudaram a vida de muita gente.

Por falar em livros, não podemos terminar o mês de março sem falar do Lobo Antunes, que morreu no início do mês.

Foi a partir do olhar atento de António Lobo Antunes que nasceram alguns dos mais importantes romances da literatura portuguesa contemporânea.

Um dos meus textos preferidos tem o título “A Velhice” e leva-me sempre numa viagem às minhas memórias.

«Devo estar a ficar velho: as Paulas Cristinas têm mais de 20 anos, os Brunos Miguéis já vão nos 15, as Cátias e as Sónias deram lugar a Martas, Catarinas, Marianas.; A maior parte dos polícias são mais velhos do que eu.; Comecei a gostar de sopa de Nabiças.; A apetecer-me voltar mais cedo para casa.; A observar, no espelho matinal, desabamentos, rugas imprevistas, a boca entre parêntesis cada vez mais fundos.;… Se calhar, daqui a pouco, uso um sapato num pé e uma pantufa de xadrez no outro …; Quando der por mim, encontro o meu sorriso na mesinha de cabeceira, a troçar-me, num copo de água, com 32 dentes de plástico.; Reconhecerei o meu lugar à mesa pelos frasquinhos dos medicamentos sobre a toalha, que me farão lembrar as bandeiras que os exploradores antigos… cravavam nos gelos polares.; Devo estar a ficar velho.; E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga….; Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito. Pensando bem (e digo isto ao espelho), não sou um senhor de idade que conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou».

Não é maravilhoso? Só mesmo a mestria do Lobo Antunes para nos fazer viajar no tempo com as suas palavras.

Que o teu envelope vá envelhecendo, lentamente!

Éverdade, já cá canta mais um ano. A primavera começou chuvosa. Mas, como tão bem sabes, sou muito festeira. Adoro festejar o meu aniversário, independentemente das vontades do São Pedro.

Quanto ao Lobo Antunes, foi com profunda tristeza que recebi a notícia da sua morte, embora soubesse que ele não estava bem. Morreu um escritor maior da literatura portuguesa, contemporânea, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos seus incontáveis leitores e admiradores, espalhados pelo mundo.    

Traduzido em praticamente todo o mundo, múltiplas vezes colocado na lista de candidatos ao Prémio Nobel de Literatura, António deixa-nos um vazio que muito dificilmente voltará a ser preenchido.

Como sabes, enfrento os problemas sempre com uma gargalhada. E é desta forma que gostaria de recordar o meu amigo, Lobo Antunes.

Creio que já conheces o “Poema aos homens constipados”:

«Pachos na testa, terço na mão,; Uma botija, chá de limão,; Zaragatoas, vinho com mel,; Três aspirinas, creme na pele; Grito de medo, chamo a mulher.; Ai Lurdes que vou morrer.; Mede-me a febre, olha-me a goela,; Cala os miúdos, fecha a janela,; Não quero canja, nem a salada,; Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.; Se tu sonhasses como me sinto,; Já vejo a morte nunca te minto,; Já vejo o inferno, chamas, diabos,; Anjos estranhos, cornos e rabos,; Vejo demónios nas suas danças; Tigres sem listras, bodes sem tranças; Choros de coruja, risos de grilo; Ai Lurdes, Lurdes fica comigo; Não é o pingo de uma torneira,; Põe-me a Santinha à cabeceira,; Compõe-me a colcha,; Fala ao prior,; Pousa o Jesus no cobertor.; Chama o Doutor, passa a chamada,; Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.; Faz-me tisana e pão de ló,; Não te levantes que fico só,; Aqui sozinho a apodrecer,; Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer».

Não conheço nenhum homem a quem este poema não assenta que nem uma luva!

Persistirá, forte e desafiante, a sua palavra.


© SOL