Casados à primeira vista: só se estraga uma casa |
Quando estive diretamente envolvido na “moda do Gin”, há dez anos, uma das perguntas que sistematicamente me faziam era de qual a moda que se iria seguir à do Gin, seria a moda da vodka, a moda da tequila ou do rum, a moda do mezcal ou do vermute. Por regra, respondia que o Gin não era bem uma moda, era apenas uma requalificação, uma vez que o Gin sempre teria feito parte das nossas vidas em Portugal; e, de qualquer forma, se fosse moda, dificilmente se iria repetir no nosso país um fenómeno tão parecido como o fenómeno do Gin. Porque “fenómeno”, e não moda, seria e será sempre a palavra certa para definir o que aconteceu com o Gin em Portugal.
Com os reality shows aconteceu mais ou menos a mesma coisa: há 25 anos, a TVI estreou um reality histórico chamado Big Brother, e, depois do seu enorme sucesso, uma das primeiras coisas que aconteceu em Portugal foi as televisões replicarem o Big Brother ao desbarato. Depois de 2001, num só ano a SIC estreou Acorrentados, Bar da TV, Confiança Cega e Masterplan, todos com sucesso moderado. A TVI também tentou diversificar por modelos de reality menos interessantes, como 1ª Companhia, Ilha da Tentação, Perdidos na Tribo, até finalmente bater no fundo com Love on Top, uma espécie de baile de finalistas passado num bar de alterne protagonizado por concorrentes de escolaridade mínima. Mais tarde, na SIC, tivemos Peso Pesado, Quem Quer Namorar com o Agricultor, SuperNanny e Casados à Primeira Vista. Em geral, as pessoas continuaram a preferir sempre o original, ou seja o Gin, perdão, o Big Brother, que hoje a TVI alterna com Secret Story, são ambos o mesmo reality mas com nome diferente. No meio desta monocultura, só um produto da SIC foi capaz de diversificar com graça e imaginação o modelo estanque de reality da TVI: o Casados à Primeira Vista.
Casados à Primeira Vista é e será sempre o mais divertido reality show da SIC, e a nova temporada, estreada em abril, confirma-o. Uma das razões do seu sucesso tem a ver com a faixa etária, enquanto o Big Brother continua a promover tiktokers calculistas, narcísicos e fúteis, Casados é uma espécie de Facebook dos reality shows, os melhores concorrentes são quase sempre boomers ou geração X, ou seja, malta acima dos 50 anos, pessoas com um passado à sua frente, muitas vezes casmurras, insuportáveis, truculentas e transparentes; e, apesar de terem provocado três divórcios, não falarem com os filhos, e já não fazerem sexo há anos, continuam a achar-se a última batata no pacote, imaginam-se sempre muito jovens e irrequietas, quando na verdade o maior problema delas é ter a idade mental de uma criança.
A Quinita, ou Maria Joaquina, de Casados à Primeira Vista, é uma luminosa alentejana de Évora de 63 anos, mas a sua alegria e boa disposição é uma forma de camuflar o luto de estar sozinha há mais de vinte anos: o marido morreu num despiste de motorizada tinha ela 39 anos. Quinita ficou com duas meninas nas mãos e seguiu em frente, reinventou-se. Hoje é um animal social, não um animal de amor, odeia ficar em casa, gosta de ramboia, e procura um homem mais novo, mais alto, mais bonito, sei lá, tipo um Paulo Pires.
Os especialistas acham que o homem ideal para a Quinita é o Carlos, um pequeno marialva de 66 anos, de Lisboa, que, tal como Quinita, também é viúvo, mas está bem com a vida e quer seguir em frente. “Acho que vou impressionar a minha futura mulher porque sou uma pessoa quase rara”, confessa humildemente o empresário do ramo imobiliário que não quer uma mulher que beba, que fume ou que tenha tatuagens (isto vindo do homem cujo cabeleireiro da mulher era o António Variações). “Há muitas mulheres que querem namorar comigo, mas eu não quero”.
Quando chega o momento de Carlos casar com Quinita, no primeiro episódio de Casados, acontece o tal momento raro de uma mulher não querer namorar nem casar com o Carlos, porque a Quinita queria, sei lá, um Paulo Pires, e o Carlos afinal não é um Paulo Pires, é gordinho, baixinho e vaidoso. Pior: o Carlos escondeu a sua idade verdadeira, afinal tem mais dez anos, já vai em 76, até ao final do primeiro episódio de Casados ainda chega aos 80. “Há uma máquina que mede a idade metabólica”, esclarece o noivo. “A idade do meu corpo dá 66”. Quinita perde o sorriso logo que vê Carlos no altar: “Ao meus olhos, ele ainda parece que tem mais idade”. Para começar, a única coisa que têm em comum é que ela não está interessada nele e ele não está interessado nela.
O primeiro casamento de Casados à Primeira Vista dá para o torto, mas, durante o copo d’água, Quinita aproveita para beber uns copitos e fazer-se ao padrinho do seu noivo, o Leonardo, esse sim bem mais adequado às exigências da patroa. Sabendo que a Quinita estava determinada em conhecer um homem mais novo, a produção podia muito bem ter impingido o concorrente mais jovem desta temporada do Casados, o Rui Filipe, de 32 anos, que ainda por cima assume gostar de mulheres mais velhas: quando tinha 16 anos, apaixonou-se por uma senhora de 46 anos, acabou por ir viver com ela, até ela o trair.
Rui Filipe é um romântico obcecado pelo Vitória de Guimarães e pela Ivete Sangalo, e já disse que a sua noiva terá de partilhar o amor dele por Ivete. Os especialistas do Casados confirmam muito a propósito que o Rui Filipe tem pavor de relações tóxicas, mas cria espaço para que isso aconteça. “Desta vez vou entrar com calma, não vou dar tudo num mês, vou dividir tudo o que tenho para dar no resto da vida”, confessa o jovem noivo que, até ao final do primeiro episódio de Casados, ainda não fez match com ninguém.
Outro par perfeito para a Quinita seria o Rui Pedro, mais um modesto cinquentão de Gondomar com a idade metabólica de 35 anos. “Toda a gente me diz, ‘como é que não arranjas alguém, tu és tão bonito?’”. As últimas relações do Rui Pedro foram muito curtas, nunca mais de dois meses. “Elas andam cegas”, desabafava o exigente solteirão, que “só” procura uma mulher mais nova, uma mulher que se cuide, que vá ao ginásio uma vez por semana, que vista um M ou um S, e que “se baixe para me apertar os cordões”. As princesas não fogem dele por causa dos cordões, mas porque ele ainda vive com os pais. “Tudo aquilo que eu ganho, eu invisto. 600 euros para 14 metros quadrados? Para que é que eu vou meter-me num buraco, para ter mulher lá?”. Imagino que tenham sido os pais do Rui Pedro a inscrevê-lo no Casados, para ver se finalmente conseguem correr com o homem e pôr o quarto dele a render em alojamento local.
O desafio de Casados é muito simples: duas pessoas vão ter de casar primeiro e conhecer-se depois. Depois da cerimónia, terão direito a uma lua-de-mel num resort tropical paradisíaco legendado em brasileiro, regressando finalmente a Portugal para partilhar algum tempo juntos num espaço comum, habitualmente um daqueles Airbnbs de Alfama ou Anjos onde já um dia morou gente. Ou seja, primeiro o idílio, depois a realidade, primeiro a bebedeira, depois a ressaca.
O Casados é apresentado sem espinhas por Diana Chaves, que representa a alma e o coração do programa. A “razão” de Casados está representada na figura de três especialistas em relações pessoais, um coro grego de orientadores a quem cabe a responsabilidade incómoda de pôr o dedo na ferida e dar o nome aos bois, de dizer ao Carlos que ele tem mesmo 76 e não 66 anos, e exigir que o Rui Pedro seja menos mão-de-vaca com os seus investimentos.
Nesta temporada, os especialistas assinalaram o facto de terem recebido imensas inscrições de perfis muito diferentes, “várias classes sociais, várias faixas etárias”. Ainda assim, escolheram três loiras que à primeira vista se confundem, dois homens do norte chamados Rui, e, como acontece quase sempre nestes reality shows heteronormativos, nenhuma minoria aqui parece ter sido representada. Perdão, nenhuma não, temos pelo menos duas minorias, um senhor com a “idade metabólica” de 66 anos, e um outro que ainda vive em casa dos pais. Mas, com a crise da habitação que por aí anda, há muito que viver em casa dos pais deixou de ser exclusivo de minorias.