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As geopolíticas da emoção

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Segunda-feira, 13 de abril

As redes sociais comentam que vai haver um debate entre Pacheco Pereira e André Ventura, mas são escassas as informações oficiais sobre o assunto. Vejo o noticiário da noite da TVI de fio a pavio à espera do debate e nada, nem sequer a habitual informação em rodapé ou um “já a seguir”. Às dez da noite, as redes sociais começam a comentar o debate, pelo que finalmente fico a saber que já começou, é mesmo na TVI2, perdão, na CNN Portugal, vai ser moderado por aquele jovem jornalista sexy que estava a perder o cabelo e agora tem cabelo novo, o João Póvoa Marinheiro.

Aparentemente, Pacheco Pereira convidou André Ventura para uma sessão de esclarecimento, tipo fact checking, em que o objetivo seria o anfitrião apresentar ao seu convidado algumas verdades sobre uma série de mentiras que Ventura estaria a veicular sobre os presos políticos do Estado Novo e os do tempo do PREC.

O confronto começou com Pacheco Pereira por cima, focado e sereno, deixando Ventura a esbracejar sozinho, mas foi perdendo rumo à medida que se tornou evidente que Ventura jamais deixaria Pacheco Pereira terminar uma ideia sequer. A ingenuidade de Pacheco Pereira levou-o a descer ao nível de discurso TikTok de Ventura, semiótica essa que Pacheco Pereira não domina, e a prova é que acabou por replicar o jargão do líder do Chega, com ambos a descreverem os argumentos contrários como sendo uma “treta”. Foi um daqueles casos em que os dois concorrentes perderam, exceto Ventura, que ganhou tempo de antena grátis. Póvoa Marinheiro chegou ao fim do debate com vontade de arrancar o cabelo todo outra vez.

Terça-feira, 14 de abril

Morre Vicente Lucas, antigo internacional do Belenenses, célebre por ter “secado Pelé” no histórico Mundial de 1966, mas a notícia do seu falecimento não chegou às nossas televisões. No mesmo dia, extingue-se na RTP outro histórico, a Grande Enciclopédia do Ludopédio, um programa desportivo que poderíamos descrever como “de nicho”, por ter tido a coragem de abordar o futebol sem incorrer nas habituais provocações envolvendo os três grandes. Ludopédio durou mais de dez anos, teve onze temporadas e 460 episódios, e praticava aquilo a que comummente se chama de “cultura desportiva”, o que é notável num país em que a cultura desportiva não passa de um jogo de interesses políticos de elite.

Terça-feira, 14 de abril

A polémica da semana dá-se no Dois às Dez da TVI, com Cristina Ferreira a abordar o julgamento dos quatro influencers que violaram e filmaram uma menor de 16 anos. A vítima acusou os atacantes de não terem parado quando ela pediu para eles pararem, e Cristina Ferreira aproveitou para lançar a questão sobre se “mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro, que estão naquela adrenalina de estarem a fazer sexo com uma rapariga, alguém entende aquele ‘não quero mais’?”. Depois destas palavras, a polémica alastrou como fogo num eucaliptal, com a apresentadora da TVI a ser crucificada pela opinião pública, incluindo redes sociais, influencers e opinions makers; uma carta aberta foi assinada por cem personalidades que repudiaram as suas palavras; e até os pais da vítima prometeram avançar com uma queixa-crime contra Cristina Ferreira, que só dois dias depois da polémica reagiu às críticas na sua página pessoal, onde lamentou “o nível de ataques à minha pessoa e à TVI”. Independentemente de ela achar que tinha razão ou não para se defender do ataque a que foi sujeita, este foi mais um daqueles casos em que a “vítima”, neste caso a Cristina Ferreira, se pôs mesmo a jeito…

Quarta-feira, 15 de abril

Casados à primeira vista na SIC vai com semana e meia em cima, e já temos cinco casais em lua-de-mel que já não se toleram. A alentejana Quinita, de 63 anos, mas com a idade mental 10 anos, pretendia “casar” com um homem com menos 20 anos, mas saiu-lhe a fava e acabou com o Carlos, de Lisboa, que até tem mais dez anos do que apregoava. Acabaram ambos por ir contrariados de lua-de-mel para o Brasil, e cada dia que passa é um novo nível de insulto mútuo protagonizado por dois velhos imaturos que temos de tolerar.

Quinta-feira, 16 de abril

Ordem do Infante para quem na TVI tomou a decisão de adquirir os direitos de transmissão dos jogos do Braga nos quartos-de-final da Liga Europa. O desafio da segunda-mão em Sevilha, Bétis-Braga, foi um novelão. O Braga tinha empatado a primeira mão em casa 1-1 e levou um banho de bola na primeira meia-hora, com a equipa andaluza a chegar facilmente aos 3-0, sendo que o árbitro entretanto anulou o terceiro golo do Bétis. Depois disso, tudo mudou, o Braga teve uma oportunidade feliz para reduzir para 2-1 e não desperdiçou, aproveitando o desacerto da defesa sevilhana. A seguir ao intervalo, o Braga foi para cima do favorito à conquista da Liga Europa, marcando dois golos de rajada, virando a eliminatória, que ficou sentenciada com um golaço, o 4-2, a vinte minutos do fim. Os minhotos silenciaram Sevilha, fizeram esquecer as eliminações de Sporting e FC Porto na mesma semana, e passam a ser agora a única equipa portuguesa nas competições europeias este ano. Mas, mal o jogo terminou, pelas 21h55, a TVI nem permitiu que aparecesse o resultado final do jogo, cortou o direto de Sevilha para seguir para mais um especial do Secret Story. Fui procurar reações na CNN Portugal, mas, às 21h55, Ana Sofia Cardoso abria o Primetime com a crise do Irão. Pessoalmente, aprecio muito esta capacidade da CNN manter uma programação blindada, imune ao chavascal do futebol nacional. Mas tivesse sido uma noite histórica do Benfica, e as notícias da crise do Irão teriam ido com os porcos, para dar lugar a mais um especial para acompanhar a noite histórica do futebol nacional.

Quinta-feira, 16 de abril

Vasco Palmeirim no Joker da RTP recebeu o concorrente Nuno Veludo, que foi futebolista e tem uma cadela chamada Uva, inspirada na Uva de Nuno Markl. Nuno Veludo escolheu para o apoiar como Super Joker um tal de Ricardo. Ricardo era nada mais que Ricardo Robles, antigo vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, que, em 2018, foi obrigado a renunciar ao mandato depois da polémica envolvendo um prédio destinado a alojamento local em Alfama.

Passados oito anos, Palmeirim abordou Robles como uma figura anónima: “Ricardo, vens de onde, fazes o quê, conta-me tudo”. Robles poderia ter respondido: “Venho de Lisboa, sou engenheiro civil na área de eficiência energética, e martelei o primeiro prego no caixão do Bloco de Esquerda há uns anos. Agora venho aqui para fazer o mesmo às hipóteses de Nuno Veludo ganhar alguma coisa no Joker”. Mas ao contrário do que aconteceu em 2018, a prestação de Robles como Rasputin de Nuno Veludo foi extraordinária, e chegaram ambos a ter na mão a possibilidade de ganhar 50 mil euros, o que daria imenso jeito para fazer obras no tal prédio de Robles em Alfama. Mas as opções finais de Veludo no concurso fizeram com que ele, de um prémio potencial de 50 mil, apenas tenha levado para casa 500 euros. Desde o debate de Pacheco Pereira com Ventura que não se via semelhante par de inglórios na nossa televisão.

Sexta-feira, 17 de abril

A Prova dos Factos na RTP tem esta capacidade de transformar exclusivos em fascículos, e dar continuidade às suas maiores investigações. A bem da verdade, a Prova dos Factos não inventou a roda, bastam dois dedos de testa a um bom editor de investigação para saber que uma história ou manchete não se esgota na sua revelação, como bem demonstrou a TVI e Sandra Felgueiras no caso das gémeas brasileiras, filão esse que foi estendido ad nauseam para além do sol posto. A investigação da Prova dos Factos relativa à famigerada personagem de Mafalda Livermore ainda não chegou ao período de nojo, bem pelo contrário, é cada tiro cada melro, para trás ficaram as suspeitas oficiais que comprometeram a ligação da militante do Chega à Câmara Municipal de Lisboa, que entretanto a afastou. Agora o dossier Livermore é menos um caso de política e mais um caso de polícia, uma vez que a Prova dos Factos continua a expor a decadência moral dos negócios sujos envolvendo o arrendamento suspeito de imóveis de Livermore a imigrantes na margem sul. Mais episódios, já a seguir.

Na noite de sexta para sábado, Judite Sousa foi convidada por Germano Almeida para comentar a crise do Médio Oriente no canal NOW, que é a CMTV, mas em tons de azul. A antiga jornalista da TVI aproveitou para contar a sua experiência de reportagem no terreno dos tempos em que esteve no Paquistão, afirmando que a atualidade política está sujeita a uma “geopolítica de emoções”. A dada altura saiu-se com um revisionismo histórico tardio, afirmando que “os japoneses atacaram Pearl Harbor porque levaram com duas bombas atómicas, não é?”. Não é bem assim, Judite, mas a semana vai longa, e são horas de ir fazer ó-ó.


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