A semana em que o alerta Tânia Laranjo foi elevado a alerta Sandra Felgueiras

A ressaca das presidenciais passou depressa, Seguro ganhou a segunda volta sem espinhas e depois foi atirado para um gabinete provisório em Queluz, onde permanecerá até tomar posse. Ventura entretanto deixou de aparecer diariamente em “entrevistas exclusivas” nas nossas televisões, o que permitiu a muitos telespetadores voltar a repor o som normal dos seus televisores.

O país pareceu regressar momentaneamente a uma certa normalidade suave e os temas mundanos puderam voltar a preencher os nossos noticiários, já tínhamos saudade das habituais tricas e provocações entre os grandes do futebol nacional, para não falar da indignação boçal de um conjunto de influencers para com a campanha publicitária de uma aplicação chamada RelationChip, que alegadamente prometia a namorados e namoradas controlar a localização e movimentos dos seus parceiros (afinal tratou-se de uma campanha de sensibilização da APAV para o dia dos namorados, e a prova provada de que muitos influencers na verdade já não influenciam, apenas reagem instintivamente a clickbaits).

O que verdadeiramente sobressaiu na espuma dos últimos dias foi a maravilhosa história divulgada pela RTP do pequeno Rodrigo de nove anos, residente em Malpica do Tejo, Castelo Branco, que ligou para o INEM para salvar a mãe cardíaca que havia perdido os sentidos, e assim emocionou uma nação dependente de sebastianismos e carente de atos heroicos genuínos. Por falar em atos heroicos, a ministra da administração interna aproveitou o momento de apaziguamento político para finalmente se demitir, mas já há muito que não se via alguém demorar tanto tempo a sair do terreno de jogo depois de lhe ter sido mostrado um cartão vermelho direto.

A demissão da ministra permitiu ao primeiro-ministro assumir provisoriamente a pasta da administração interna, mesmo a tempo de enfrentar, com a tal mentalidade de Cristiano Ronaldo que apregoa, os efeitos dos estragos da depressão Marta (e depois Nils e Oriana) na região do Mondego. Subitamente Leiria, Alcácer do Sal ou Santarém desapareceram das manchetes, o foco agora estava em Coimbra, um dique ameaçava ruir (e ruiu mesmo), e a falência do dique ameaçava ruir uma autoestrada (que ruiu mesmo). Com a presença simultânea de Montenegro, Marcelo, Ana Abrunhosa e os responsáveis da agência do ambiente e da proteção civil em Coimbra em direto para nossas casas, esse foi finalmente o momento em que o alerta Tânia Laranjo foi elevado a alerta Sandra Felgueiras.

Quando o alerta sobe de Tânia Laranjo para Sandra Felgueiras, tudo muda. Muda o estilo, a estética, a indumentária, o discurso e a relevância da calamidade, que assim deixa de ser regional para passar a ser global. Quando finalmente temos uma grande pivot de uma televisão histórica a mostrar umas galochas em direto no Mondego, sabemos que o caso é sério…

Agora a sério: o que para já apraz dizer sobre a deslocação de Sandra Felgueiras, e concretamente da produção do Jornal Nacional da TVI, para o olho do furacão, é que pecou por tardia. Há semanas que a CMTV faz emissões em permanência em direto dos locais que mais sofreram com o comboio de tempestades, não se percebe em rigor como se podem justificar as nossas televisões perante esta hesitação em descentralizar as emissões de telejornais, acompanhar 24/7 de forma presencial, não remota, o que se passa no país, quando foi a tragédia do elevador da Glória em Lisboa as televisões demoraram 48 horas até decidir abrir noticiários no local, agora é como se fosse preciso um visto para subir além do Trancão.

Sandra Felgueiras esteve três dias consecutivos a coordenar o Jornal Nacional da TVI em direto da região do Mondego, ora em Montemor-o-Velho, ora em Coimbra, ao quarto dia saiu de cena e foi substituída por Pedro Benevides, que habitualmente faz os fins de semana. Os três dias de Sandra Felgueiras em emissão foram desiguais, não necessariamente maus, quase sempre hiperbólicos, menos no conteúdo, mais na forma: “estou literalmente dentro de água”, “a velocidade estonteante das águas”, “a sensação térmica é de quatro graus”, sendo de registar que isto foi proferido na noite mais quente da semana, estavam 14 graus em Montemor-o-Velho àquela hora.

Na quarta feira, dia 11 de fevereiro, impressionou o visual bling bling como a jornalista se apresentou, com demasiada bijuteria e um penteado impecável, destacando-se uma gabardine de um branco tão forte que seria capaz de servir de farol a quem estivesse perdido no Mondego. Às 21h00, Sandra Felgueiras anuncia que “o sino de Montemor-o-Velho voltou a tocar, é como se fosse o prenúncio da tragédia”, uma dramatização absolutamente dispensável para quem realmente está a sofrer com as tempestades, e para quem, no resto do país global, exige informações rigorosas sobre a calamidade.

Ao terceiro dia, ressuscitou a Sandra Felgueiras do primeiro dia: como estava marcada uma entrevista à presidente da câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, a jornalista voltou a vestir-se a rigor, desta vez com um casacão teddy cor de mostarda muito bonito.

No segundo dia, quinta-feira, 12 de fevereiro, a Sandra Felgueiras socialite deu lugar à Sandra Felgueiras operária, menos brincos e anéis, mais terroir e vida vivida, para não falar do cabelo lambido pela chuva, a perceção já era de uma profissional que teria passado o dia inteiro a trabalhar em contexto de invisibilidade e agora estava ali a relatar a verdade dos factos aos portugueses. Ainda assim, a jornalista não resistiu a fechar o jornal num tom excessivamente performativo, debitando um discurso inspiracional vulgar enquanto atravessava o viaduto protegida pelo seu guarda-chuva, um momento registado não por uma mas duas câmaras, o que revela a pouca espontaneidade de um jornalismo que, cada vez mais, se reclama ser de proximidade, mas que apenas quer dar nas vistas: “É em momentos como estes que nos corações dos homens palpita apenas esperança, na certeza de que todos juntos sejamos capazes de vencer a força da natureza, porque é isto que faz a resistência dos homens”.

Nessa noite, sonhei que o pequeno Rodrigo estava a ligar para o INEM, mas desta vez para tentar salvar a Sandra Felgueiras.


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