Portugal e o território esquecido
Há problemas estruturais que moldam o futuro de um país e que raramente ocupam o centro do debate público. O território é um deles.
Se olharmos para o mapa de Portugal à noite, a imagem é reveladora. Uma faixa luminosa acompanha o litoral, de Braga a Setúbal, enquanto grande parte do interior permanece quase às escuras.
Não é apenas uma diferença de luz. É o retrato silencioso de uma escolha coletiva que fomos fazendo ao longo de décadas.
Portugal tornou-se um país profundamente desequilibrado no seu território.
Curiosamente, raramente discutimos este assunto. Falamos de crescimento económico, produtividade, investimento ou contas públicas. Debatemos reformas, impostos ou ciclos políticos. Mas quase nunca colocamos no centro da reflexão uma pergunta simples: como estamos a organizar o espaço onde vivemos.
Durante décadas, o território foi tratado sobretudo como uma matéria técnica – planos, licenciamentos, regulamentos – quando, na verdade, é uma das decisões mais estratégicas que um país pode tomar.
Porque o território nunca é neutro.
É através dele que se decide onde se vive, onde se trabalha, onde se investe e onde as oportunidades desaparecem.
Quando olhamos para o mapa de Portugal percebemos que ele conta uma história clara: a de um país que se concentrou progressivamente no litoral, enquanto vastas partes do interior foram perdendo população, atividade económica e massa crítica.
Em parte, esta evolução resulta de um traço histórico do próprio modelo de modernização português. Desde o século XX, o crescimento económico concentrou-se sobretudo nos grandes centros urbanos e nos eixos costeiros, onde se instalaram a indústria, as infraestruturas portuárias e muitos dos principais serviços do Estado. A litoralização acabou por tornar-se quase sinónimo de desenvolvimento, enquanto vastas regiões do........
