Só mais uma oportunidade |
A dimensão dos estragos causados pela sucessão de tempestades e pelas cheias das últimas semanas veio pôr a nu todas as fragilidades de um país pobre. Não há planeamento, não há ordenamento, não há fiscalização, não há manutenção, não há preparação, não há capacidade de reação imediata, não há nada. Pobre país, pobre de podre por dentro, à vista de toda a gente ou mesmo que alindado por fora.
Pode lá admitir-se que haja gente, aos milhares, sem luz ou água durante três longuíssimas semanas? Ou que a principal e mais utilizada autoestrada do país, a que liga as duas principais cidades e áreas metropolitanas sofra uma derrocada daquelas? Caramba, como não escoraram aquele troço da A1 como o fizeram há meia dúzia de anos, aquando da última rutura nos diques do Mondego? E como é possível deixar chegar a Cerca de Santo Agostinho ao ponto de colapsar? Ou voltar a ver submerso o Mosteiro de Santa Clara a Velha depois de tanto investimento em obras para a edificação de uma cortina de contenção das águas do rio, que, está visto, não garante a inviolabilidade do perímetro? Mas os exemplos multiplicam-se por todas as extensas áreas mais afetadas da região Centro, de Leiria a Arruda dos Vinhos, de Figueiró à Figueira da Foz.
E a Lisboa, sim, até na capital houve que cortar parcialmente a autoestrada de ligação a Cascais também por causa de um aluimento de terras na subida de Monsanto, sendo que um outro aluimento, a pouca distância dali, obrigou ao corte de uma das saídas para norte da Ponte 25 de Abril.
Pobre país este em que as suas gentes e infraestruturas estão assim à mercê das intempéries.
E em que os seus eleitos e dirigentes se arrogam salvadores da população nestes momentos críticos em que vestem o casaco florescente da proteção civil e passam umas noites sem dormir e a dar ordens em frente às câmaras das tv’s, por vezes exagerando riscos, mas esquecendo todas as responsabilidades que lhes cabem no estado a que o território chegou. Especialmente aqueles que exerceram funções aos mais diversos níveis, do poder local ao central, passando pelo regional, com competências nas áreas do planeamento, do desenvolvimento, do financiamento e supervisão à coesão territorial e por aí fora.
É verdade que há exceções. Uma delas é o presidente da Câmara da Figueira da Foz.Pedro Santana Lopes está ao serviço da população por vocação e gosto.
É um político por natureza, que não vive sem a política, respira política, alimenta-se da política.
Com espírito de missão. E uma ligação ao povo eleitor sem outras amarras, muito menos partidárias.
Diz o que pensa e não tem papas na língua – foi, aliás, o primeiro a fazer-se ouvir, sem perder tempo nem pensar em mais nada, quando saiu a terreiro garantindo que com ele ninguém do Executivo tinha falado quando o Governo quis fazer crer que estava articulado com os autarcas desde o primeiro momento da tempestade Kristin, e não estava.
Como, agora, veio pôr o dedo na ferida e chamar a atenção para a necessidade de reconstruir o país com cabeça, tronco e membros.
«As adversidades têm que proporcionar oportunidades para construir um tempo novo, um futuro novo», defendeu o autarca para quem esta é a oportunidade de «preparar o tempo do futuro com novas infraestruturas e tecnologias atualizadas e contemporâneas, métodos de trabalho com uma eficácia que os instrumentos ao nosso dispor permitem e sermos mais competitivos nos salários, na atratividade do investimento e na qualidade de vida».
Santana Lopes sabe do que fala. Sabe que se o país ficou como está depois de um ‘comboio de tempestades’ é porque há muito, mesmo muito por fazer, do ordenamento e planeamento à qualidade das infraestruturas e das estruturas e da construção e da manutenção e por aí fora. E não só nos distritos de Coimbra e de Leiria, mas por todo o lado. Um mal com raízes profundas e que ultrapassa fronteiras. O apagão na Península Ibérica não foi assim há tanto tempo, nem a tragédia valenciana com a tempestade Dana e muito menos a sucessão de acidentes fatais na ferrovia espanhola.
Se a hora é de reconstrução há que não perder tempo e começar a fazer, mas, como diz Pedro Santana Lopes, fazer bem feito.
mario.ramires@nascerdosol.pt