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A direita não é o que o Chega quiser

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15.03.2026

Quando Sá Carneiro morreu, na sequência da queda do avião Cessna em Camarate, consta que foram lançados foguetes na zona de Setúbal, então bastião do PCP. Para o PCP, Sá Carneiro era um perigoso fascista e, claro, «fascista bom é fascista morto».

Em bom rigor, não era apenas Sá Carneiro ou o PSD. O CDS era fascista. Pinheiro de Azevedo era fascista. Tudo o que estivesse à direita do PCP era fascista. É tudo uma questão de perspectiva: visto do último vagão à esquerda, tudo o mais está à direita. 

Foi uma sensação análoga a esta que tive ao ler a crónica de Diogo Pacheco de Amorim, neste mesmo jornal, intitulada “O centro-direita, o centro e o centro-esquerda”. Resumindo o artigo numa frase, Pacheco de Amorim explica-nos que só o Chega é verdadeiramente de direita, tudo o resto são decalques mais ou menos envergonhados de esquerdismo.

O que Pacheco de Amorim se esquece de fazer — essencial para o exercício a que se propõe — é definir o que significa ser de direita. A sua origem está na Assembleia Nacional da Revolução Francesa. À direita sentavam-se os que acreditavam no ancien régime, ou seja, o que restava da aristocracia, o que restava da nobreza e o que restava do clero. Já do outro lado – por contraste posicional, à esquerda – cabia tudo o mais: dos moderados republicanos de centro, passando pelos jacobinos e terminando numa degenerescência dos próprios jacobinos, os enragés, a que hoje chamaríamos de extrema-esquerda.

O que significa então, à luz desta definição, ser-se de direita? Defender uma monarquia absolutista, em que o soberano é a lei («L’État c’est moi») e segue ainda as obediências da Igreja? Se direita significa defender o absolutismo, então qualquer defensor do Estado de Direito seria, por definição, de esquerda. Será esta a direita a que Pacheco de Amorim se refere?

Esta definição já era de si anacrónica, e mais ficou com o surgimento de outras correntes ideológicas. Veja-se o caso do liberalismo. O liberalismo é frontalmente contra a concentração de poder, rejeitando, por definição, suseranos, soberanos e qualquer forma de poder discricionário. Aliás, o liberalismo surge em Portugal precisamente da luta contra o Miguelismo, que representava a monarquia absolutista, e deu-nos a Constituição de 1822, que limitou os poderes fácticos da Coroa. Se os liberais são contra o absolutismo, será então o liberalismo de esquerda?

A confusão surgirá sempre que se fale de direita, porque não existe uma direita (nem uma esquerda) – existem várias. A direita é uma agremiação de diferentes correntes de pensamento que já nada têm que ver com a disposição original da Revolução Francesa. Vai do conservadorismo de Burke ao liberalismo clássico de Locke ou Tocqueville, passando pela democracia-cristã de Adenauer. 

E existe também uma direita nacionalista, influenciada por pensadores como de Maistre e Maurras. Uma direita que coloca a nação acima do indivíduo, que aceita um Estado interventivo e que é anti-liberal.

Façamos agora o exercício que Pacheco de Amorim fez aos restantes partidos. Imagine-se um partido que quer criar uma federação sindical própria, que quer manter empresas de aviação civil no controlo do Estado, que quer limitar os lucros de grandes empresas, que propôs aumentar as pensões mínimas para o nível do salário mínimo, que quer subsidiar o uso de auto-estradas acabando com o princípio do utilizador-pagador, que é contra a reforma laboral. Este seria, sem surpresa, o programa económico de um partido socialista. Com surpresa, ou talvez não, é também o programa económico do partido Chega.

Enfim, a direita que o Chega reclama não é a da liberdade, do indivíduo ou do mercado — é a da autoridade, da nação e do Estado. Dirigismo económico tingido de nacionalismo é a direita que Portugal não precisa.


© SOL