O mundo dos Fernandos
Fernando era um homem na casa dos setenta anos, reformado, simples e discreto, amigo do seu amigo, com sentido de família sempre presente. Conheci-o há mais de uma década e guardo dele gratas recordações. Há cerca de uns três anos, num encontro que tivemos, apercebi-me no decorrer de uma conversa, que tinha grande dificuldade em responder às perguntas que lhe fazia e todo o seu discurso era marcado por imensas pausas prolongadas nas respostas. Perante esta estranha situação, que desde logo me pareceu preocupante, alertei de imediato a sua filha que conjuntamente com a mulher, seguindo o meu conselho, ouviram o parecer de um neurologista. Este meu colega diagnosticou um síndroma demencial e medicou-o mantendo-o sob vigilância. A partir dai o Fernando entrou numa rampa descendente em termos cognitivos com repercussão na sua vida diária, passando a viver num mundo à parte. O seu mundo. O estado de saúde ia-se deteriorando e a sua mulher, companheira de uma vida, dando o melhor de si própria para o ajudar, foi passando pelas várias fases do processo desde a dúvida inicial, depois a negação da situação e por fim a resignação, reações naturais e próprias do ser humano. Em outubro passado, recebi a noticia, já esperada de que tinha entrado numa instituição, por já não haver condições de continuar em sua casa. Se estou aqui a partilhar este caso da vida real, foi para chamar a atenção de todos para um problema grave e cada vez mais frequente entre nós: as demências. Antigamente pouco se falava destas doenças e quando alguém apresentava sintomas como a perda de memória, dificuldade no raciocínio ou na linguagem dizia-se que estava ‘senil’. O mundo das demências onde estão os Fernandos desta vida é um mundo misterioso que ninguém é capaz de compreender. Só eles o conhecem mas também não nos conseguem explicar. Sobre este assunto muitas questões se nos colocam. Poder-se-á prevenir a demência? Há algum tratamento para a combater? Que faz a sociedade perante um caso de demência? No primeiro ponto, a maioria dos especialistas diz que manter o cérebro sempre em atividade é fundamental. Nunca estar ‘parado’ nem ficar sempre em casa em frente à televisão, sair com amigos, ir a espetáculos, ler, escrever, o exercício das palavras cruzadas para puxar pela cabeça ajuda muito, tudo isto associado à pratica regular do exercício físico. Eu, pelo menos, defendo esta teoria e aconselho os doentes a segui-la. Vale o que vale, mas, a minha experiencia é o que me diz. Quanto ao tratamento, sabe-se que existem fármacos, mas, muitos psiquiatras e neurologistas apesar de os prescreverem, acreditam que não fazem muito mais do que atrasar a marcha demencial. Em relação ao comportamento da sociedade levantam-se todas as dificuldades. Sabendo-se que em fases avançadas é quase impossível manter um doente destes em sua casa por melhores que sejam os cuidados prestados, onde estão então os locais apropriados para os acolher? Quem tem possibilidades financeiras ainda pode encontrar soluções em instituições particulares de qualidade e os outros? Pobre país este, que pela falta de estruturas de retaguarda, tem de empurrar os Fernandos que vivem no mundo deles para lares sem o mínimo de condições ou para locais inapropriados onde o seu fim não tardará a chegar. É um facto que a Rede Nacional de Cuidados Continuados existe, mas, ainda está longe de chegar a todos e que os Cuidados Paliativos dão os primeiros passos, o que já é uma esperança, mas no momento presente, ainda muito aquém das necessidades. E sofrem mais os familiares do que os próprios doentes. Os ‘Fernandos’, vivendo num mundo irreal de fantasia e sem sentido crítico, nem se apercebem do que se passa à sua volta e vão assim caminhando para o abismo se entretanto não aparecer uma ‘intercorrência’ que ponha fim a esse quadro tenebroso.
Fui visitar o Fernando há poucos meses. Está internado num local de excelência onde nada lhe falta. Ainda consegui arrancar-lhe duas ou três palavras apesar de já não me conhecer. Foi duro. O pouco tempo que estive com ele pareceu-me uma eternidade. Retirei-me cabisbaixo e fui à minha vida enquanto o Fernando por lá ficou mergulhado no seu mundo onde entrara há três anos numa viagem sem regresso. Vejo agora, com maior nitidez, que há dois mundos distintos com realidades bem diferentes. Um, em que vivemos tranquilamente, um dia de cada vez, onde há luz, há sonhos, há esperança. É o nosso. Outro, onde também vive gente, mas sem luz, nem sonhos, nem esperança. É o mundo dos Fernandos...
(Por se tratar de um caso da vida real, o nome do doente foi trocado)
