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Mundo cão, País pelintra

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21.03.2026

O mundo está a ser virado do avesso, com a guerra no Irão. A rapidez com que os americanos contavam ‘arrumar’ o regime de Teerão transformou-se num pesadelo. O disparo no preço dos combustíveis é a consequência mais visível da decisão de Donald Trump e dos seus aliados de Israel. Não contavam com a resistência que enfrentam e que ameaça prosseguir. Ninguém, em plena consciência, pode aventurar-se a dizer onde irá isto tudo desembocar, mas há uma nota digna de registo, nos últimos dias, no conflito: o distanciamento da Europa em relação aos Estados Unidos. Das várias capitais europeias saiu um assomo de revolta perante o apelo de Trump aos aliados da NATO para se envolverem em ações de proteção de petroleiros, no estreito de Ormuz. O valente ‘não’, a que até Portugal se associou, devolveu alguma (embora residual) esperança de que a União Europeia talvez um dia consiga ultrapassar divergências estruturais e encontrar maneiras de se habituar a falar a uma só voz, com dignidade, força e eficácia real. Deu gosto presenciar a recusa dos líderes europeus, não disponíveis para se submeterem aos desígnios de Washington nem aturarem as ameaças que, a par das taxas, são as armas preferidas do presidente dos Estados Unidos, na sua lógica de intimidação e chantagem. Pena que os impactos do conflito nas economias não se resolvam com palavras. No mundo inteiro, a subida dos preços dos combustíveis provoca uma onda generalizada de aumentos, que lança o pânico nos consumidores e nas famílias. Inflação, desemprego e recessão são palavras que regressam ao léxico do quotidiano.

Em todo este contexto, o que mais impressiona é o ponto a que as coisas chegaram, o poder imenso que, quando concentrado nas mãos de alguém e mal usado, se transforma numa máquina de alto índice de destruição de sonhos, projetos e valores.

É claro que todos os Governos, mesmo os que defendem menos presença do Estado na vida dos cidadãos, se apressam a tomar medidas para tentar aliviar, no bolso daqueles que os elegeram, as repercussões do que se passa no Golfo. São aspirinas num mal maior, que amenizam a dor, mas não resolvem as questões de fundo. Não passam de pensos rápidos, independentemente dos efeitos imediatos. Em países pequenos e dependentes, como o nosso, os problemas estruturais subsistirão para além da reação de primeira linha. Seria bom que os agentes políticos se concentrassem, pois, no essencial, naquilo que é perene e determinante em termos de futuro. O contrário, por exemplo, daquilo a que se assistiu, esta semana, no Parlamento, a propósito da reforma de Mário Centeno. É vergonhoso o discurso miserabilista proporcionado ao País inteiro, à conta do populismo fácil, que mina os fundamentos da nossa sociedade. Vivemos num país pelintra, pindérico, alimentado a inveja e despeito. Acho que não falei mais do que duas vezes na vida com Mário Centeno e não nutro nem simpatia nem aversão pelo ex-governador do Banco de Portugal. Repugna-me o espírito mesquinho com que, em Portugal, se observa quem quer que seja que tenha um mínimo de exposição. Então, se tiver exercido funções públicas, ainda pior! Ninguém cuida de saber se é justo ou injusto, se adequado ou não. Primeiro, critica-se e, de preferência, condena-se. Depois logo se vê. Seriedade na análise é coisa que não existe. Não admira que a nossa classe política seja o que é, no essencial: medíocre, incapaz de pensamento estruturado e sem capacidade para atrair os melhores. Não podemos ter a ousadia de aspirar a um País próspero ou, pelo menos, remediado, com gente desta. No entanto, nada disto é de admirar: desde que um primeiro-ministro, há anos, deu a entender que quem ganhe mais do que cinco mil euros é rico, tudo se torna admissível. É esse espírito pequenino (diferente de poupadinho) que faz de nós um povo mestre na arte da maledicência, da cobiça e da inveja.

Valha-nos as alegrias das equipas portuguesas nas competições europeias de futebol. Três delas revelaram-se, esta semana, inconformadas, ambiciosas e lutadoras. Os miúdos do Benfica também. Maiores do que o País, em determinação, trabalho e crença. No meio de tanto problema, de tanta frustração e dos ecos das bombas, haja alguma coisa que traga leveza à vida.


© SOL