O aeroporto que ninguém somou, num mundo que já mudou

À primeira vista, a solução defendida para o novo aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete (CTA) parece a melhor de todas. A área está sob a concessão aeroportuária gerida pela VINCI. Grande parte dos terrenos já pertence ao Estado. Fica relativamente perto de Lisboa. E, no fim, fecha-se a Portela e liberta-se uma vasta área da cidade para habitação.

Quatro argumentos, todos verdadeiros, todos a apontar na mesma direção. É uma conta que fecha num minuto de conversa.

O problema começa ao segundo minuto. Nenhum destes argumentos responde às perguntas que decidem, de facto, se um aeroporto está bem ou mal localizado: a água que fica por baixo dele, o custo que ninguém somou até ao fim e que se vai fatiando para passar despercebido, o país que existirá no dia em que abrir, e o legado para gerações durante dezenas de décadas, resultado de decisões tecnicamente incompletas e já publicamente avaliadas como nada independentes.

São perguntas que ainda estamos a tempo de fazer. Depois de o betão estar no sítio, deixam de se poder fazer e começam-se a pagar em milhares de milhões de euros.

## O aeroporto que estamos a decidir é para o país que existe daqui a trinta anos

A pergunta de fundo é qual será a melhor localização tendo em conta a mobilidade que aí vem, não a que temos. Nos próximos dez a quinze anos, os comboios de alta velocidade — a circular entre 400 e 600 km/h — vão alterar profundamente o transporte de passageiros na Europa. Tão importante como a localização do aeroporto será a sua integração com as futuras estações de alta velocidade.

Um exemplo simples. Para apanhar um comboio, basta chegar à estação quinze minutos antes, e a estação fica normalmente no centro da cidade. Para apanhar um voo no CTA, um passageiro que saia de Lisboa tem de contar com uma hora para chegar ao aeroporto; duas horas de antecedência para check-in, segurança e embarque; à chegada, uma hora entre a aterragem, a saída da aeronave e a recolha da bagagem; e mais uma hora, já com malas, do aeroporto até ao centro da cidade de destino. São cinco horas somadas ao tempo efetivo de voo — e nenhuma delas depende de o avião ser mais rápido.

A consequência é previsível: em todas as ligações nacionais, na maior parte das ibéricas e numa parte significativa das europeias, o........

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