O paradoxo da ficção |
Quando assistimos a um filme, lemos um romance ou vemos uma peça de teatro ou uma ópera, sabemos que não é real; ainda assim, entregamo-nos à narrativa. A esse fenómeno chamou o poeta e crítico inglês Samuel Taylor Coleridge «suspensão da descrença», expressão usada em Biographia Literaria (1817). Nesta obra, em plena afirmação do Romantismo, e num contexto ainda marcado pela herança racionalista do Iluminismo, Coleridge reflete sobre o poder da imaginação poética.
No século das Luzes, privilegiara-se a razão, a ciência e a explicação lógica do mundo, relegando o sobrenatural para o domínio da superstição. Contra essa restrição, Coleridge defendeu que o fantástico podia ser poeticamente legítimo: não exigia a renúncia à razão, mas apenas a sua suspensão momentânea. Ao aceitar provisoriamente o implausível como verosímil, o leitor entra no jogo da imaginação e torna possível a experiência estética.
Embora a expressão seja moderna, o fenómeno é antigo. O teatro greco-romano já pressupunha um espectador consciente da representação e, ainda assim, emocionalmente implicado nela, capaz de experimentar medo, compaixão ou horror. A catarse descrita por Aristóteles na Poética assenta precisamente nessa tensão: sabemos que se trata de ficção, mas reagimos como se os acontecimentos fossem reais.
A questão, longe de resolvida, permanece atual: como pode a consciência da irrealidade coexistir com a intensidade da emoção? Que mecanismo permite aceitar o impossível sem abdicar do juízo crítico?
As neurociências cognitivas oferecem hoje algumas pistas. Sabemos que o cérebro opera de modo preditivo: ao acompanhar uma narrativa, construímos modelos mentais, prevemos desfechos, inferimos intenções. Em Édipo Rei, o público pressente a verdade antes do protagonista; em Hamlet, a constante hesitação do príncipe prolonga a expectativa e intensifica a tensão; em Romeu e Julieta, sabemos desde o início que os amantes estão condenados e, ainda assim, acompanhamos cada gesto como se pudesse alterar o destino. A receção de uma história não é passiva: envolve antecipação, formulação de hipóteses e simulação contínua.
Embora saibamos que as personagens são fictícias, reagimos emocionalmente ao seu destino. Podemos reconhecer que Desdémona, Emma Bovary ou Madama Butterfly nunca existiram e, ainda assim, viver como tragédia a sua morte. Os mecanismos que distinguem o real do imaginado não coincidem integralmente com os que sustentam a emoção. Existem estudos que sugerem que a resposta empática envolve a participação de circuitos cerebrais associados ao chamado «sistema de neurónios-espelho», ativados tanto na realização de uma ação como na sua observação.
Não se trata de reduzir a literatura ou o teatro à biologia, mas de reconhecer que a experiência estética mobiliza processos cognitivos e afetivos articulados. A «suspensão da descrença» não é renúncia à razão; é a sua adaptação ao jogo ficcional. Mantemos a consciência de que a história é inventada, mas permitimos que a simulação mental e a resposta emocional operem sem bloqueio.
A «fé poética» de Coleridge pode, assim, ser entendida como uma competência humana sofisticada: a capacidade de habitar provisoriamente mundos inexistentes e deles extrair conhecimento, empatia e reconfiguração afetiva. Num tempo como o nosso, saturado de séries, videojogos e universos ficcionais cada vez mais imersivos, esta aptidão revela-se mais atual do que nunca.