O acaso não é cego
Horace Walpole (1717–1797), inglês fundador do romance gótico, atribuía especial importância às descobertas fortuitas. Durante o Grand Tour, ficou impressionado com um retrato da aristocrata Bianca Capello visto em Florença, que mencionou repetidamente na correspondência com o amigo Sir Horace Mann, enviado britânico naquela cidade. Mann viria a adquirir o retrato e a oferecê-lo a Walpole. Este, ao encontrar casualmente um elemento heráldico associado à pintura, descreveu o episódio como um caso de ‘serendipidade’, termo por si criado para designar a descoberta de algo valioso não procurado deliberadamente. Para cunhar este termo, inspirou-se na sua experiência e no conto persa Os Três Príncipes de Serendip (imagem), que mostra como o conhecimento emerge da conjugação do acaso com a perspicácia.
Na ciência e na tecnologia abundam exemplos de descobertas decisivas resultantes da atenção a fenómenos inesperados. Em 1796, Edward Jenner observou que as ordenhadoras que contraíam varíola bovina não desenvolviam varíola humana, conduzindo à formulação do princípio da vacinação. Em 1820, Hans........
