Quem decide o que pode ser pensado? |
Uma das estratégias típicas da esquerda, sobretudo da sua variante radical, é o seu comportamento totalitário disfarçado de superioridade moral. Não se trata apenas de sectarismo ou de intolerância partidária. Trata-se de uma estrutura mental e política: a convicção de que a esquerda não representa apenas uma posição entre outras, mas o próprio lado da História, da Justiça e do Bem. E, quando um campo político começa a ver-se não como uma parte da sociedade, mas como o seu tribunal moral, o resultado tende a ser sempre o mesmo: deslegitimação do adversário, patologização da dissidência e, em última instância, exclusão do outro enquanto interlocutor legítimo.
É precisamente aqui que reside o seu núcleo totalitário. O totalitarismo não tem de começar com polícia política, campos de reeducação ou censura oficial. Começa antes: quando um movimento deixa de reconhecer no adversário um opositor legítimo e passa a vê-lo como um obstáculo moral à redenção da sociedade. Começa no momento em que a discordância passa a ser tratada como algo de cariz pecaminoso. A partir daí, pensar de forma diferente já não é apenas estar errado; é ser cúmplice do mal, da opressão, da injustiça, da violência estrutural ou da regressão histórica. E, uma vez instalada esta lógica, tudo passa a ser permitido em nome de uma suposta urgência moral superior.
Esta mentalidade define unilateralmente o que é o bem e o que é o mal, estabelece regras que valem para uns e não para outros e aplica padrões morais seletivos com a convicção de quem se julga acima de qualquer suspeita. A discriminação praticada pela esquerda é apresentada como justa, necessária ou até pedagógica; a mesma atitude, quando vem da direita, é condenada como odiosa ou inaceitável. A violência, o radicalismo, a humilhação pública e até o insulto, quando surgem à esquerda, tendem a ser relativizados, contextualizados ou desculpabilizados; quando surgem à direita, são tratados como sintomas alarmantes de uma ameaça moral ou civilizacional.
O critério deixa, assim, de ser a natureza do ato e passa a ser a identidade ideológica de quem o pratica. E esta é uma das características definidoras da mentalidade totalitária. Já não existem princípios comuns aplicáveis a todos; existem permissões seletivas administradas por uma moral de tribo. O mesmo gesto muda de valor consoante a sua origem política. A mesma linguagem pode ser considerada resistência ou extremismo, denúncia ou discurso de ódio, justiça ou perseguição, dependendo de quem a utiliza e contra quem é dirigida. O problema deixa, assim, de ser a ação em si mesma e passa a ser a sua localização no mapa moral construído pela própria esquerda.
Este duplo critério manifesta-se de forma clara em múltiplos domínios da vida pública. Quando a esquerda ocupa espaços culturais, cargos institucionais ou iniciativas dirigidas aos mais jovens, isso é apresentado como algo natural, desejável ou necessário. Quando forças não alinhadas com a esquerda procuram fazer o mesmo, a reação é de alarme e condenação. Fala-se então em “infiltração”, “captura”, “radicalização” ou “normalização do intolerável”. Mensagens de cariz progressista em feiras de emprego, eventos públicos, universidades ou instituições educativas são celebradas como expressão de cidadania, inclusão ou consciência social; posições conservadoras, identitárias ou liberais clássicas são, pelo contrário, deslegitimadas ou moralmente estigmatizadas.
Este padrão revela um problema mais profundo do que mera hipocrisia partidária. Revela uma pretensão hegemónica. O critério que define o que é “bom” ou “mau”, “aceitável” ou “perigoso”, “civilizado” ou “extremista” é estabelecido pelo próprio campo da esquerda e do progressismo liberal, que se arroga o direito de julgar a si próprio com benevolência e os outros com severidade. Não estamos perante uma simples disputa de opiniões, mas perante uma tentativa de monopólio moral do espaço público. E, num sistema de avaliação que aplica pesos e medidas diferentes consoante a origem política das ações, dificilmente pode existir objetividade, rigor ou verdadeira justiça.
Herbert Marcuse, pensador marxista da Escola de Frankfurt exilado nos Estados Unidos, deu a esta prática uma formulação filosófica através do conceito de “tolerância repressiva”. No seu ensaio de 1965, argumenta que a tolerância, tal como era entendida nas democracias liberais, não constituía uma virtude neutra ou emancipadora, mas um mecanismo subtil de imposição da ordem existente. A tolerância liberal, longe de libertar, serviria para proteger estruturas de dominação já instaladas, permitindo que forças poderosas se perpetuassem sob a aparência de pluralismo. Segundo ele, a verdadeira tolerância libertadora exigiria, por isso, intolerância perante movimentos e ideias de direita e tolerância, ou mesmo apoio ativo, a movimentos e ideias de esquerda.
É aqui que a esquerda revela de forma mais nítida o seu carácter iliberal: não quer apenas vencer no debate; quer redefinir as condições do próprio debate, de modo a que certas posições entrem logo em cena marcadas como moralmente ilegítimas. Marcuse considerava que a sociedade liberal, com o seu suposto “mercado livre de ideias”, não era verdadeiramente livre. Pelo contrário, permitia que as forças dominantes reproduzissem desigualdades estruturais sob a aparência de neutralidade. A liberdade formal, longe de libertar, funcionaria, assim, como um mecanismo de integração, absorção e neutralização. Em vez de reprimir brutalmente a dissidência, o sistema liberal esvaziá-la-ia e torná-la inofensiva.
A crítica contém um elemento de inteligência, mas o seu desfecho é profundamente perigoso. Porque, a partir do momento em que se conclui que a liberdade formal é apenas uma máscara do poder, abre-se caminho para algo muito mais grave: a legitimação de uma liberdade administrada ideologicamente. Marcuse defendia, por isso, que era necessário tomar partido: recusar tolerância às forças que reproduziam a dominação e estender tolerância plena às forças que promoveriam a emancipação. O problema está precisamente aqui: quem decide o que é emancipador? Quem decide o que é opressivo? Quem arbitra o conflito?
Com esta redefinição, a tolerância deixava de ser um princípio universal e passava a ser um instrumento político seletivo, uma técnica de filtragem moral do espaço público. Já não se tratava de tolerar todos em nome de uma regra comum, mas de tolerar apenas aqueles que fossem considerados historicamente justos. O problema central desta posição é evidente: o juízo sobre quem é opressor e quem é libertador não é neutro, nem consensual, nem inocente. Depende da ideologia de quem julga. E, a partir do momento em que esse juízo é monopolizado por um campo político, a liberdade deixa de ser um direito e passa a ser uma concessão.
É precisamente neste ponto que o paradoxo de Marcuse se torna verdadeiramente revelador. Sob a linguagem da libertação, legitima-se a repressão de ideias dissidentes, restringe-se a liberdade de expressão e dá-se cobertura filosófica ao totalitarismo. Via na liberdade formal um estratagema que integrava as massas no consumo, uniformizava o pensamento e neutralizava a crítica radical. A solução que propunha era inverter essa tolerância: silenciar o que considerava “regressivo” e promover o que considerava “progressista”. No fundo, substituía uma alegada neutralidade liberal por um novo critério autoritário, assente na sua própria visão ideológica da história, da justiça e da emancipação.
A proposta contém, portanto, um núcleo profundamente iliberal e potencialmente totalitário. Não porque deseje reproduzir as formas clássicas do totalitarismo do século XX, mas porque partilha com elas um traço essencial: a recusa em reconhecer legitimidade moral e política plena ao dissenso. O totalitarismo, no seu núcleo, não é apenas o controlo absoluto do Estado sobre a sociedade; é a tentativa de submeter toda a vida comum a uma única grelha moral e ideológica.
Ao rejeitar a tolerância liberal por considerá-la repressiva, Marcuse acabou por justificar uma nova forma de intolerância, agora revestida de linguagem emancipatória e legitimada por uma suposta superioridade moral. O que começou como crítica à opressão visível acabou por oferecer caução teórica a formas mais subtis de exclusão, censura e discriminação ideológica. Já não se trata de proibir em nome da ordem, da tradição ou da autoridade; trata-se de proibir em nome do bem, da justiça, da inclusão e da libertação. Mas o mecanismo, no essencial, é semelhante.
É importante reconhecer que os duplos critérios e a seletividade moral não são exclusivos da esquerda. Também existem noutros campos políticos. Mas, no caso desta esquerda, existe algo de adicional: a tendência para moralizar integralmente a política, isto é, para converter divergências normais de visão do mundo em distinções absolutas entre o humano aceitável e o humano condenável.
Nesse sentido, Marcuse não inventa a hipocrisia moral. Faz algo talvez mais grave: dá-lhe estatuto filosófico. Enquanto muitos praticam o duplo critério de forma oportunista, emocional ou tribal, a “tolerância repressiva” eleva-o à condição de estratégia consciente de luta política.
O “mercado de ideias” liberal, com todas as suas imperfeições, continua, por isso, a ser preferível a entregar a um único campo político o poder de decidir o que pode ou não ser dito em nome de uma suposta emancipação. O pluralismo liberal tem muitas imperfeições, mas continua a ser menos perigoso do que qualquer sistema em que um grupo se arrogue o direito de definir unilateralmente o que é aceitável pensar, dizer ou defender.
A verdadeira tolerância exige coerência. Os mesmos padrões devem aplicar-se a todos, independentemente da sua cor política. E o verdadeiro pluralismo começa precisamente onde termina a tentação de transformar a política num tribunal de salvação moral.