Portugal. Porque todos nos ultrapassam? |
Portugal habituou-se a acreditar que o atraso era apenas uma questão de tempo. Mas a história recente da Europa desmente esse ilusão. Países que há pouco mais de três décadas emergiam do comunismo, como a Polónia e a Lituânia, partiram de muito abaixo e hoje crescem acima de nós. A divergência já não é herança do passado: é o resultado das escolhas feitas entretanto.
Nesse espaço de tempo o rendimento mínimo dos lituanos cresceu quase 700% e o dos polacos mais de 400%. Em 2005, segundo dados do Eurostat e da OCDE, o salário mínimo era de 437€ em Portugal, 211€ na Polónia e 145€ na Lituânia. Em 2026, passou para 1.153€ na Lituânia ( 695%), 1.139€ na Polónia ( 439%) e 1.073€ em Portugal ( 145%, considerando que o valor correspondente a 14 meses de pagamento fosse distribuído por 12 meses). Quanto ao salário médio, em 2005 era de 907€ em Portugal, 623€ na Polónia e 370€ na Lituânia, passando em 2025 (últimos trimestres) para 1.670€ em Portugal ( 84%), 2.191€ na Polónia ( 252%) e 2.399€ na Lituânia ( 548%), já ajustados para inflação e poder de compra. Estes números evidenciam que, apesar do apoio europeu e das transformações estruturais, Portugal tem registado um crescimento significativamente mais lento do que países que outrora partilhavam níveis de desenvolvimento muito inferiores, o que exige uma reflexão séria sobre as opções seguidas.
Quando estas evidências são apresentadas, surge frequentemente um argumento destinado a relativizar o problema, comparando Portugal de hoje com o país de 1970. É certo que o país sofreu transformações profundas, beneficiou de fundos europeus e acompanhou mudanças externas significativas. Portugal mudou muito e para melhor. Ainda assim, perante os recursos que recebeu, a sua localização e as oportunidades disponíveis, poderia e deveria apresentar resultados mais robustos e uma qualidade de vida mais elevada.
Parte da responsabilidade reside num modelo centralista e estatizante, adotado alternadamente por PS e PSD, que gerou entraves institucionais e económicos: um mercado de trabalho onde despedir é difícil, contratar envolve riscos e crescer implica enfrentar um labirinto administrativo; uma burocracia pesada que atrasa negócios e investimentos; intervenção estatal relevante em setores estratégicos, que distorce incentivos; e uma carga fiscal complexa e elevada, que penaliza inovação e investimento privado. A predominância desta lógica partidária, com elites políticas que exercem influência relevante em setores-chave da sociedade, contribuiu para o atraso relativo face a outros países ocidentais. Ainda assim, fatores externos e legados históricos também desempenharam um papel determinante no atraso crónico do país.
Se compararmos a nossa evolução económica desde a adesão à União Europeia até hoje, encontramos a história de um salto inicial significativo, seguido por anos perdidos, estagnação e recuperações tímidas. Esta realidade remete........