Os tudólogos e a ditadura da opinião

Os canais convencionais de televisão estão hoje repletos de analistas. Contudo, muitos deles não são verdadeiros especialistas numa área específica do conhecimento. São antes aquilo a que poderíamos chamar tudólogos, especialistas em generalidades. A sua autoridade não deriva tanto de investigação aprofundada ou de conhecimento acumulado, mas da visibilidade mediática constante.

O fenómeno revelou uma nova fase na transformação profunda na forma como as sociedades contemporâneas produzem e reconhecem autoridade intelectual. Num ambiente dominado pela velocidade mediática e pela competição pela atenção, o especialista ocasional tende a desaparecer, sendo substituído por uma nova figura, o intérprete permanente da atualidade.

Já não se trata de alguém que domina uma área específica do conhecimento, mas de alguém que pode falar sobre todas as áreas. A sua figura torna-se o centro do debate, mais importante do que o conhecimento concreto de qualquer tema ou assunto. O opinante transforma-se assim numa espécie de “famoso por ser famoso”, à semelhança das pessoas que se tornam celebridades por participarem em programas como o Big Brother. O resultado é uma desvalorização do significado, do sentido e da interpretação rigorosa dos acontecimentos.

O termo pundit tem uma história. Era originalmente um título estritamente religioso ou jurídico, mas transformou-se num termo geral para designar qualquer especialista ou analista que oferece opiniões públicas, especialmente nos média. No entanto, o que hoje encontramos é frequentemente outra figura, que poderíamos designar como o superpundit, o tudólogo. Trata-se do especialista mediático que tudo comenta.

O fenómeno surgiu sobretudo nos Estados Unidos nas décadas de 80 e 90 e está ligado ao crescimento do modelo de televisão de notícias 24 horas. Esse fluxo permanente de notícias colocou um problema inicial muito simples, como preencher continuamente o tempo de emissão. A solução encontrada foi a criação de programas de debate permanente, onde analistas, políticos e opinadores interpretam continuamente os acontecimentos. A opinião passou assim a ser tão valorizada quanto o conhecimento especializado.

O superpundit corresponde à figura de um supercomunicador mediático que, ao surgir repetidamente no ecrã, adquire uma reputação de especialista. O seu sucesso depende sobretudo da sua presença mediática e da sua capacidade de moldar a opinião pública num formato que combina informação, comentário e entretenimento televisivo.

Com frequência, o pundit torna-se também uma espécie de caricatura ideológica. Pode situar-se à direita ou à esquerda, mas toda a sua análise tende a ser filtrada por essa posição ideológica. Isto representa igualmente uma degradação do espaço da informação e da comunicação. O jornalismo transformou-se progressivamente em interpretação permanente, o que........

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