O Liberalismo chegou ao fim? O debate que divide a direita americana

Nos últimos anos, um dos debates mais importantes do pensamento político ocidental tem-se desenvolvido no interior do próprio conservadorismo americano. Em causa está uma questão fundamental: deve o conservadorismo continuar a defender a ordem liberal que estruturou as democracias ocidentais desde o pós-guerra ou reconhecer que esse modelo entrou numa fase de esgotamento? O confronto entre estas duas respostas tornou-se um dos debates mais reveladores da crise contemporânea do liberalismo.

Conceitos como conservadorismo e liberalismo, democracia liberal e pós-liberalismo, ou mesmo a possibilidade de uma democracia iliberal animam hoje o debate político no mundo anglo-saxónico. Em torno deles gravitam várias questões decisivas. O ciclo liberal que dominou o Ocidente durante décadas esgotou-se ou encontra-se apenas em transformação? Poderão existir democracias que não sejam liberais? No caso americano, o poder atualmente exercido representa ainda a continuidade da tradição conservadora ou anuncia um novo rumo? Donald Trump representa uma continuidade no Partido Republicano ou uma rutura? E o trumpismo será apenas a expressão política de um homem ou já um fenómeno dotado de um corpo doutrinário próprio?

Em Portugal, a inexistência de uma tradição conservadora ou liberal consistente tornou esta discussão relativamente periférica, ainda que inevitável. Nos Estados Unidos, porém, ela ocupa o centro das disputas intelectuais e das escolhas políticas que moldam o presente.

Um episódio particularmente revelador ocorreu em 2019, com a publicação do ensaio Against David French-ism, de Sohrab Ahmari, na revista First Things. O texto corporizou a discussão sobre a possibilidade de romper com o modelo liberal dominante ou de persistir nele tentando reformá-lo a partir de dentro.

Um facto concreto esteve na base desse ensaio e ficou conhecido como o episódio da Drag Queen Story Hour, ocorrido em 2019 numa biblioteca pública de Sacramento. O evento tornou-se emblemático dessa divergência. Sohrab Ahmari condenou a iniciativa, sustentando que a leitura de histórias por Drag Queens a crianças não deveria ter lugar numa instituição financiada pelo contribuinte e que estava em causa uma questão de formação moral. Para David French, essa crítica era contestável, pois se tratava de um problema de igualdade de acesso ao espaço público e de imparcialidade institucional. O desacordo revelou duas conceções incompatíveis do papel das........

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