menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Mito Passos: o homem que executou, não que salvou

24 0
28.07.2026

Portugal, à semelhança de outros países de matriz latina, exibe uma persistente propensão para o messianismo político: o mito do homem solitário, impoluto e providencial capaz de redimir a governação. A figura de Pedro Passos Coelho é frequentemente investida desta aura por setores significativos da sociedade.

Uma análise isenta, distante tanto da demonização partidária quanto do endeusamento acrítico, obriga a escrutinar a sua ação para além do arquétipo salvífico. Embora a sua integridade ética constitua um ativo político inegável num tempo de crise sistémica, importa avaliar criticamente a sua visão estratégica e os limites da sua governação.

No panorama político contemporâneo devemos rejeitar uma falsa dicotomia: por um lado, o estatismo e o centralismo ineficientes; por outro, um hiperliberalismo acoplado a uma agenda progressista global, que subordina os Estados às dinâmicas de um mercado transnacional desprovido de laços de soberania ou enraizamento comunitário.

Nesse sentido, Passos Coelho não atuou como um salvador contra os males do socialismo, mas sim como o agente político rigoroso de uma conjuntura internacional ditada pelos mercados e pelas exigências de ajustamento externo. Reconhecer-lhe mérito na execução exigente desse plano não equivale a validar uma visão dogmática onde o Estado abdica do seu papel regulador em prol de uma uniformização económica global, tão prejudicial à coesão social quanto o centralismo burocrático.

Vamos aos factos. Passos, como político, terá, se não houver um futuro político para ele, uma importância menor na história dos acontecimentos políticos sem o peso que teve, por exemplo, Cavaco Silva. Esta comparação entre sociais-democratas implica que se refira o contexto de fundo e as grandes linhas.

Como primeiro-ministro, Cavaco Silva teve o mérito de aplicar um volume brutal de fundos comunitários em Portugal, os quadros comunitários de apoio, com sucesso e rigor relativo, comparando com o desempenho português antes e depois. Modernizou infraestruturas, atraiu investimento estrangeiro e conduziu a adesão de Portugal ao processo de convergência europeia. Mas foi também Cavaco quem assinou o Tratado de Maastricht, o momento fundador da venda da Europa aos mercados: a transição de uma comunidade de cooperação económica para uma união monetária que retirou aos Estados o controlo da política cambial e monetária. Nesse sentido, Cavaco teve peso histórico real, para o bem e para o mal, num grau que Passos nunca teve: um construiu e comprometeu a soberania nacional numa escala histórica; o outro executou, décadas depois, as consequências desse compromisso.

Distinguimos negativamente esta União Europeia que inverteu muito do seu projeto inicial de uma união de nações europeias partilhando interesses económicos. A União Europeia transformou-se num projeto hegemónico e uniformizador do espaço político, económico e até cultural e axiológico europeu. Neste projeto, os Estados cedem a sua soberania em nome de um poder transnacional; os mercados e os acionistas têm prioridade em relação aos países e aos cidadãos. O crédito e a dívida são armas fundamentais........

© SOL