Foucault, o Irão e o limite do relativismo político

 Nestes dias de ataque dos Estados Unidos e de Israel ao regime teocrático iraniano, vários grupos como o Hamas, o Hezbollah, a Jihad Islâmica e os Huthis condenaram violentamente a ação. Na Europa, no Brasil e em setores da ala mais à esquerda do Partido Democrata norte-americano multiplicaram-se manifestações igualmente veementes de condenação.

É um padrão recorrente. Sempre que Israel, independentemente do governo em funções, e os Estados Unidos, sobretudo quando governados por republicanos, se envolvem num conflito, setores significativos da esquerda ocidental respondem com crítica imediata e estrutural.

Os governos democráticos não estão isentos de erro, nem devem escapar a escrutínio. No entanto, existe uma diferença qualitativa entre democracias com mecanismos de alternância, liberdade de imprensa e Estado de direito, e regimes teocráticos, ditaduras ou cleptocracias onde a dissidência é suprimida e a lei subordinada à ideologia ou à revelação religiosa.

O problema não reside na crítica às democracias. O problema surge quando essa crítica se converte numa incapacidade de distinguir normativamente entre a possibilidade de liberdade e a tirania.

A esquerda ocidental contemporânea opera frequentemente através de um esquema moral simplificado que divide o mundo entre opressores e oprimidos. A diferença face ao marxismo clássico é que o critério deixou de ser primariamente económico e passou a ser civilizacional e histórico. O Ocidente é classificado como estrutura de poder por definição. Quem se lhe opõe tende a ser interpretado como resistência, independentemente da natureza interna do seu regime. O conteúdo ideológico do ator político torna-se secundário face à sua posição geopolítica.

Esta transformação assenta num relativismo filosófico que substituiu a convicção iluminista na existência de princípios com pretensão de universalidade pela ideia de que todos os valores são construções culturais equivalentes. Se liberdade individual, separação de poderes e governo representativo são apenas produtos históricos situados, então defendê-los como superiores passa a ser interpretado como etnocentrismo. A democracia de tipo ocidental deixa de possuir estatuto normativo privilegiado e transforma-se num modelo entre outros.

Mantêm-se igualmente os reflexos do anti-imperialismo do século XX. Durante décadas, a identidade da esquerda estruturou-se em oposição ao colonialismo e às intervenções ocidentais. Essa grelha interpretativa sobreviveu ao fim da Guerra Fria. Quando uma potência ocidental intervém, é automaticamente lida como força dominante. Quando um ator não ocidental a confronta, é frequentemente enquadrado como resistência, mesmo que seja teocrático ou autoritário. A hierarquia moral desloca-se do tipo de regime para a posição no sistema internacional.

A este quadro histórico soma-se um elemento sociológico frequentemente ignorado. As gerações formadas nas décadas de 1960 e 1970 sob forte influência do marxismo, do maoísmo e de diversas variantes do socialismo revolucionário não desapareceram com o colapso do........

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