A imigração africana e a hipocrisia ocidental |
A história factual do caos imigratório terá de partir da constatação de uma grande hipocrisia e cinismo das alegadas democracias liberais progressistas. As causas são multifatoriais, mas esta é decisiva.
A história das deslocações de milhões de seres humanos não se compreende por lentes simplificadoras, nem são multidões de gente bondosa e infeliz, nem exércitos de demónios destruidores. O debate corrente sobre a imigração ilude o fundamental e está repleto de cinismo, leviandade, hipocrisia e oportunismo.
No caso específico de África, muita gente foge sobretudo porque um continente riquíssimo vive em guerra, exploração e fome exponenciais. A União Europeia, de modo hipócrita, faz com África algo semelhante ao que acontece com a Ucrânia: despeja dinheiro, mas alimenta em simultâneo a economia que diz combater. Estes hipócritas europeus negoceiam, ao mesmo tempo, com tiranias, cleptocracias e governos africanos brutais. Importa fixar uma asserção simples: quem tem condições materiais, dignidade, bem-estar e prosperidade raramente quer sair da sua terra.
Este continente é riquíssimo em recursos naturais mas simultaneamente tem os países com o PIB per capita mais baixo do planeta. Em 2025, o PIB nominal de todo o continente foi estimado em cerca de 2,82 biliões de dólares, com um PIB per capita nominal de apenas 1920 dólares, ou seja, aproximadamente o PIB de uma única economia europeia de grande dimensão, distribuído por 1,4 mil milhões de pessoas. O estudo de referência de Léonce Ndikumana e James K. Boyce (Africa's Odious Debts, 2011) mostra-nos uma face dessa realidade. Entre 1970 e 2008 saíram do continente........