Com Ventura, os debates são políticos

SÁBADO, 11Eleições no Brasil em aberto

Passei duas semanas no Brasil e percebi que as eleições presidenciais estão em aberto. Até há pouco estava convencido que Lula seria claramente favorito. Mas as últimas sondagens (do fim da semana passada) mostram que as eleições serão muito apertadas. Será muito difícil Lula ganhar na primeira volta. Na segunda volta, Flávio Bolsonaro lidera, dentro das margens de erro. Mas o mais preocupante para Lula é o aumento da sua taxa de rejeição, neste momento mais 10% do que FB.

Além disso, a corrupção à volta do Banco Master não ajuda Lula. Nada indica que Lula esteja envolvido no caso, mas acabará por ser prejudicado por duas razões. Em primeiro lugar, os brasileiros recordam os grandes casos de corrupção, desde o mensalão ao Lava Jato e agora o Banco Master, e verificam que todos os casos acontecerem com Lula e o PT no poder. Depois, pelo menos dois juízes do Supremo Tribunal Constitucional estão envolvidos no caso Banco Master. Dias Toffoli, aparentemente, tinha negócios escondidos com o dono do banco. A mulher de Alexandre Morais era advogada do banco quando já estava sob investigação pelo Supremo Tribunal (e a ganhar milhões de reais). Ambos são muito próximos de Lula.

Além da corrupção, o outro grande tema da campanha será a (falta de) segurança. A insegurança nas maiores cidades está a aumentar, e o crime organizado tem uma presença cada vez maior na vida pública brasileira. Mais uma vez, a insegurança e o crime são temas que afetam o PT e beneficiam a candidatura de Flávio Bolsonaro.

DOMINGO, 12Derrota de Orbán

Orbán perdeu as eleições na Hungria. Os húngaros cansaram-se do sistema de corrupção que instalou no país e dos seus instintos autoritários. Ainda bem. Foi bom para a democracia húngara e para a Europa. A derrota da corrupção é sempre uma boa notícia. Mas o novo PM também é de Direita, é um conservador e um dissidente do partido de Orbán. Ninguém espere mudanças na política do novo Governo húngaro em relação à imigração e às questões fraturantes. A política nacionalista e conservadora continuará.

Onde a política húngara irá mudar substancialmente será em relação à Rússia. Magyar abandonará a relação próxima com Putin (mas não o petróleo russo, pelo menos tão cedo) e seguramente os seus ministros deixarão de espiar ao serviço de Moscovo. Mas a alteração da política em relação à Rússia não significa um apoio incondicional à Ucrânia. É necessário entender que a Hungria é o único país da União Europeia que tem uma minoria nacional na Ucrânia. Os ‘húngaros’ ucranianos nem sempre têm sido bem tratados pelas autoridades ucranianas. Com Orbán no poder, a maioria dos europeus não conseguia ver a realidade. Mas é a realidade que influencia a política húngara em relação à Ucrânia.

A derrota de Orbán tem outro efeito positivo para a União Europeia. A partir de agora os países europeus deixam de enfrentar ‘os vetos do Orbán’ e podem assim adotar políticas mais duras em relação à Rússia. Vamos ver se a culpa era apenas do Orbán.

SEGUNDA, 13O enorme erro de Pacheco Pereira

Incapaz de resistir à sua vaidade e ânsia de popularidade e audiências, Pacheco Pereira cometeu um enorme erro com o desafio a André Ventura para discutir questões centrais da história portuguesa recente. Antes de mais, estava convencido que seria um debate intelectual entre um ‘historiador’ conhecedor e um populista ignorante (chegar ao estúdio com mais de dez livros é de um ridículo atroz, uma espécie de novo-riquismo intelectual). Enganou-se completamente. Com Ventura, os debates são políticos. No fundo, Pacheco Pereira desconfiava que o debate poderia tornar-se político. Mas a sua vaidade também o levou a acreditar que iria mostrar a todos como é que se debate com Ventura.

Mas o maior erro de Pacheco Pereira foi ter contribuído para abrir o debate sobre as interpretações políticas da história recente de Portugal. Aliás, Pacheco Pereira prestou um serviço à Direita. A interpretação do período histórico pós-25 de Abril, em Portugal e nas antigas colónias, foi construída pelas esquerdas e imposto às direitas, que a aceitaram passivamente durante meio século. Essa interpretação foi confrontada e reaberta por André Ventura. Politicamente, é muito relevante. Normalmente, quem domina as interpretações do passado, controla os debates políticos e culturais do presente. Só a Direita partidária nacional não entende isto.

A Direita só se emancipa do domínio cultural das esquerdas quando perceber que a interpretação do período pós-25 de Abril foi imposta ao país. Foi isso que, de um modo por vezes atabalhoado e pouco rigoroso, Ventura mostrou no debate com Pacheco Pereira.

A história recente de Portugal também é a história dos presos políticos de 1974 e de 1975, presos sem qualquer razão, apenas por delito de opinião ou por pertencerem à classe social errada. Também é feita de expropriações ilegais, de ocupações da propriedade privada, do exílio forçado de centenas de milhares de portugueses, os quais deixaram de poder viver no seu país. Também é feita de ‘retornados’ que nasceram ou foram pobres para as antigas colónias, onde criaram riqueza e construíram as suas vidas, e foram forçados a regressar ou, em muitos casos, a vir para Portugal sem nada, e eram tratados como «fascistas» e «colonialistas».

Pacheco Pereira tentou aldrabar os portugueses dizendo que teriam sido apenas exageros do período revolucionário e uma forma de libertação dos «50 anos de ditadura». Pacheco Pereira sabe muito bem que é mentira. Os exageros foram resultado da ideologia das extremas esquerdas, especialmente do comunismo soviético seguido pelo PCP de Álvaro Cunhal. Pacheco Pereira também sabe que se os comunistas tomassem o poder, a ditadura seria muito mais sangrenta e dura do que o Estado Novo. Tudo o que se passou em 1975 mostra a importância do 25 de Novembro e a razão por que a Direita democrática celebra essa data.

Há quem diga que não é o tempo para criar novas divisões. Eu prefiro divisões onde se possa discutir as verdades do que imposições mentirosas. Devemos palavras de agradecimento a Pacheco Pereira. Foi para o debate para aldrabar, sob a capa de uma suposta superioridade intelectual, e acabou a contribuir para a verdade. Foi para o debate como um homem de Esquerda para derrotar um populista de direita e acabou a ajudar a Direita, contribuindo para o fim dos mitos das esquerdas sobre o pós-25 de Abril.

TERÇA, 14O bloqueio americano em Hormuz

Os Estados Unidos mudaram de estratégia em relação ao Irão. Passaram da guerra para a pressão económica. O bloqueio impede navios de partirem ou chegarem a portos iranianos. E está a funcionar. Com o bloqueio naval ao Irão, os Estados Unidos colocaram pressão sobre a China para convencer o Irão a aceitar um acordo de paz. A China precisa do petróleo iraniano (sobretudo, depois de perder o petróleo da Venezuela). A economia iraniana não sobrevive sem vender petróleo para a China (90% das exportações de petróleo iraniano).

Mas a pressão dos Estados Unidos sobre a China não se limita ao bloqueio do estreito de Hormuz. Os americanos assinaram hoje um acordo de defesa com a Indonésia que inclui a segurança do estreito de Malacca, indispensável para o comércio chinês. O acordo com a Indonésia inclui ainda os estreitos de Lombok e de Makassar, a via marítima alternativa à do estreito de Malacca. Os americanos estão a enviar sinais fortes aos chineses de que o comércio global (cerca de 75% por vias marítimas) depende da força naval americana.

A administração Trump e o governo chinês, por razões económicas, querem uma détente económica bilateral. Deverá ser anunciada em Pequim durante a visita de Trump no mês de Maio. A détente sino-americana exige um tratado de paz com o Irão e resolução do problema do estreito de Hormuz.

QUARTA, 15A violência política milita no PS

No final do mês passado, um militante de extrema-esquerda atacou com um ‘cocktail molotov’ com gasolina os participantes numa marcha pró-vida. Soubemos agora que a justiça indiciou o suspeito por «infrações terroristas». A imprensa também noticiou que o suposto terrorista é militante do PS. Entretanto, o PS suspendeu a sua militância, e fez muito bem.

Mas não chega. É muito preocupante assistir à infiltração de militantes de extrema-esquerda no PS. Se o partido é do centro-esquerda, do socialismo democrático moderado, não pode receber militantes que recorrem à violência política. Numa era de radicalização política, convinha saber que medidas tomará o partido para evitar estas militâncias. Diria o mesmo se o PSD tivesse militantes neonazis.

O suspeito de terrorismo político também deu aulas na Faculdade de Belas Artes. As nossas universidades contratam praticantes da violência política para dar aulas aos seus alunos? E não devem explicações aos portugueses?


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