A semana (de 7 a 11 de março)

A guerra no Irão continua

Os Estados Unidos e Israel continuam a atacar o Irão e a enfraquecer o seu poder militar. O número de ataques de mísseis do Irão já está a diminuir. No entanto, o regime iraniano mostra uma grande capacidade de resistência. A estratégia militar do Irão está assente numa enorme autonomia dos comandos regionais da Guarda Revolucionária. E as ordens são simples: atacar o máximo possível de alvos no Golfo para criar o caos político e económico. Além disso, mesmo com a destruição do sistema de mísseis iranianos, restam os drones. É muito difícil destruir drones, os quais são facilmente escondidos. Também é relativamente fácil construí-los. O Irão não deixará de usar drones até ao fim da guerra, e as defesas anti-drones são mais complicadas e escassas. Não é por acaso que os países do Golfo estão a pedir ajuda à Ucrânia para se defenderem dos drones iranianos. 

Mas o regime iraniano também mantém a capacidade de provocar Trump. Escolheu como o novo líder supremo um dos filhos de Khamenei, Mojtaba Khamenei. Não foi uma escolha pacífica e as consequências são ainda imprevisíveis. O regime iraniano é profundamente anti-monárquico e um Khamenei II constitui um afastamento radical da linha republicana do regime. 

Muitos dos altos clérigos iranianos também aceitaram a escolha de Khamenei II com uma enorme relutância. Não lhe reconhecem o estatuto religioso para chegar a líder supremo. Não nos podemos esquecer que o líder supremo do Irão também deve ser o líder supremo de todos os Xiitas fora do Irão. Dificilmente, Khamenei II será aceite por todos os Xiitas fora do Irão.  

Finalmente, a escolha de Mojtaba Khamenei é uma vitória para a Guarda Revolucionária e significa o seu controlo do regime iraniano. O aumento de poder da Guarda Revolucionária vai destabilizar os equilíbrios políticos do Irão, até agora fundamentais para a preservação do regime.   

Os preços do petróleo passam os 100 dólares

Os Estados Unidos e Israel estão em guerra contra o Irão, mas o regime iraniano está a lutar contra o mercado global de petróleo (e de gás). Por isso, atacam os outros países do Golfo, todos eles produtores de petróleo e de gás. Simultaneamente, tornam quase impossível a navegação do estreito de Ormuz, por onde passa normalmente cerca de 20% do petróleo e do gás mundial. Os países asiáticos são os mais prejudicados, sobretudo a China, para onde vai grande parte do petróleo e do gás do Golfo. Por exemplo, a União Europeia compra a penas 6% do gás que consome do Golfo (do Qatar) e cerca de 13% do petróleo (da Arábia Saudita e do Iraque) que consome. Mas os preços são globais e também aumentam para a Europa.

Até agora, o Irão ainda não usou um dos seus aliados, os Houthis no Iemen. Se o regime iraniano decidir activá-los, o impacto no preço do petróleo poderá ser ainda maior. Os Houthis têm capacidade para causar enormes disrupções na navegação no Mar Vermelho para o Canal Suez, uma das principais rotas marítimas do comércio global. 

Restam duas questões importantes. Os Estados Unidos vão colocar uma força naval a patrulhar o estreito de Ormuz para restabelecer a navegação? Se o fizerem, vão pedir a países europeus para participarem nessa força? 

O novo Presidente da República

Hoje, o novo Presidente da República, António José Seguro, tomou posse. No discurso de tomada de posse, anunciou que a saúde será a primeira prioridade do seu mandato. Receio que Seguro se possa arrepender. Não tem poderes para melhorar as políticas de saúde, por isso depende do Governo. O que dirá Seguro, e o que dirão os portugueses, se o estado da saúde em Portugal não tiver melhorado dentro de cinco anos? 

O novo Presidente da República também anunciou que vetará politicamente uma lei laboral que não seja aprovada na concertação social. Ou seja, concedeu direito de veto à UGT. E abriu a porta para um entendimento entre o Governo e o Chega no Parlamento, a única forma de ultrapassar um veto político. Aparentemente, o PM fechou a porta a esse entendimento comparando o Chega à CGTP.

António José Seguro também declarou que continuará a acompanhar a recuperação das regiões afectadas pelas tempestades e a colocar pressão no Governo para disponibilizar rapidamente os meios para essa recuperação. Fez bem e esse é o papel do PR: colocar pressão no Governo para fazer o que deve ser feito. 

Finalmente, o novo Presidente da República mostrou preocupação com a governabilidade do país. Por mais que se afirme o contrário, um governo minoritário enfrenta sempre mais dificuldades para reformar e executar políticas ambiciosas. António José Seguro também disse que para ele não há linhas vermelhas em termos de construções de maiorias. As linhas vermelhas só se aplicam a políticas concretas. Mais uma vez, esteve bem. Os eleitores portugueses é que decidem as linhas vermelhas em relação à representação parlamentar. E em democracia não há eleitores de primeira e de segunda, nem deputados de primeira e de segunda.

O poder de Trump sobre os mercados

O preço do petróleo subiu até um pouco mais de 110 dólares. Trump fez um discurso e uma conferência de imprensa onde afirmou que a guerra acabará cedo e que os objectivos estão practicamente alcançados e o petróleo em cerca de três horas desceu para 80 dólares. O poder da palavra de Trump sobre os mercados é impressionante, de um modo nunca visto antes. 

Trump vai tentar controlar as oscilações do preço do petróleo com declarações, confiando no peso da sua palavra, ou vai mesmo acabar a intervenção no Irão nas próximas semanas? A influência das declarações de Trump sobre os preços do petróleo pode funcionar uma ou duas vezes, mas depois deixa de ser eficaz. Parece-me que Trump quer ir à China no dia 31 de Março com a intervenção no Irão terminada. Mas não depende só dele. Como dizia Maquiavel, «os príncipes começam as guerras quando querem, mas só as acabam quando podem». 

Os iranianos desejam o fim dos bombardeamentos o mais depressa possível, e a reconstrução da autoridade do Estado iraniano é urgente. Mas também perceberam que basta afectar a navegação no estreito de Ormuz para causar instabilidade nos mercados de energia e nos Estados Unidos. Basta aos iranianos fazer ataques de drones a um ou dois navios por dia para manter os preços da energia altos. Isso obrigaria os Estados Unidos a continuarem a intervenção militar, passando dos céus do Irão para o mar do Golfo.  

A corrupção no Brasil agora chegou ao Supremo Tribunal Federal

No Brasil, os escândalos financeiros sucedem-se. Também não é uma notícia nova que o PT e Lula estejam envolvidos. A novidade é o envolvimento de juízes do Supremo Tribunal Federal. Os juízes que devem combater a corrupção estão metidos nela. Neste momento, um dos dois maiores casos de corrupção levou à queda do Banco Master. O que sabemos até hoje? O juiz do STF responsável pela investigação Banco Master, Dias Toffoli, fez negócios imobiliários com familiares e com o fundador e dono do Banco Master. Foi forçado a passar o caso a um colega. 

Outro juiz do STF, Alexandre Morais, famoso por ter liderado a investigação sobre o golpe de estado que levou Bolsonaro para a prisão, também está envolvido com o caso Banco Master. Trocou mensagens com o dono do banco, nas quais este lhe fez vários pedidos, e a mulher de Alexandre Morais era advogada do Banco Master, onda ganhava uma fortuna.

Naturalmente, estes casos afetam a legitimidade do STF. Numa sondagem esta semana, 54% dos brasileiros não acreditam que Bolsonaro tenha tentado fazer um golpe de estado e acham que a investigação foi uma perseguição política. Esta percepção pode ter impacto nas eleições presidenciais, já que tudo indica que o principal candidato de direita será um dos filhos de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro.  

O outro grande caso de corrupção envolve o filho de Lula, e diz respeito à segurança social. Há sinais fortes de que o filho do Presidente esteve metido num esquema de desvio de verbas da segurança social. De momento, está fugido em Madrid, mas poderá haver um mandato de captura para a sua prisão. O que fará o governo socialista espanhol se isso acontecer? 

Se o filho for preso, será muito difícil a Lula concorrer às eleições presidenciais (embora não seja impossível). Na mesma sondagem, um pouco mais de 50% dos brasileiros considera que Lula não deve ser candidato a presidente. Aliás, neste momento, Lula tem uma taxa de rejeição maior do Flávio Bolsonaro, 43.6% contra 34.5%. As eleições brasileiras estão longe de estar decididas. E Lula pode até não ser candidato. 


© SOL