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Será que eles sabem o que estão a fazer?

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16.03.2026

Trump entrou numa guerra sem saber muito bem quem está do outro lado, desconhecendo a história daqueles povos e mais grave que isso, a geografia do Irão que lhe permitiu ganhar inúmeras guerras por desgaste de quem tentava conquistar aquela zona. Uma intervenção terrestre será mais um desastre e uma repetição do Afeganistão e do Iraque.

A América de Trump acreditou que o povo sairia à rua e derrubaria o regime para colocar em Teerão uma figura obediente a Washington e o problema estaria resolvido. Mas isso não aconteceu, nem é de todo provável que vá acontecer. O Povo suporta dos militares que resistem e a América aparece como um diabo que os quer exterminar.

Mas o Irão tinha uma estratégia e está a conseguir um impacto brutal na economia global. Por muito que se tente negar a realidade, a América não tem nenhuma saída boa para este conflito.

Pode aplicar a receita de Gaza e destruir tudo à lei da bomba, matando metade daquele povo que se tinha proposto a salvar, reclamando uma vitória por KO em mais um massacre nos nossos dias.

É provável que esta seja a solução apresentada por Israel e pelos falcões americanos perante o que se adivinha para as próximas semanas. O Irão tem ainda muitos mísseis e drones baratos para lançar e a tecnologia de que dispõe está a furar as defesas aéreas de Israel, dos EUA e dos países da região. Teerão tem real capacidade de manter a guerra e não sabemos por quanto tempo, mas adivinhamos que será muito.

Quanto tempo vamos suportar com estas subidas loucas dos combustíveis e de tudo o que temos de comprar no dia-a-dia?

E o mercado económico e turístico daquela região vai esperar quanto tempo com uma tragédia que deita ao lixo décadas de investimentos?

As lideranças árabes vão inevitavelmente pressionar dos dois lados para um acordo, mas Teerão pode não capitular e manterá capacidade de ser um forte ator na região. Isto será mau para a imagem americana, mas principalmente para Israel, que não aceitará facilmente ver Trump decretar do fim da guerra, sem terem atingido nenhum dos objetivos. Este é um cenário muito provável e terá consequências nos projetos de Telavive.

O Mundo segue atónito e estupefacto a estratégia ziguezagueante do Presidente americano. Numa hora a guerra está ganha e a terminar, depois será longa, depois mais ou menos porque o Irão já não reage e a seguir vem a realidade e Teerão volta a atacar em todas as frentes, com estrondo. Não estamos a ver dos danos em Israel, que aplicou censura militar para que não se mostrem os efeitos devastadores dos ataques. O mesmo com as bases dos EUA onde os jornalistas não têm qualquer acesso.

As Nações Unidas pouco podem fazer, o Presidente francês tenta ter alguma iniciativa, que tem sido atabalhoada e sem nenhum efeito. O Reino Unido segue no meio da ponte, mas sem nenhuma vontade de entrar na guerra. A Rússia ganha biliões com a subida do petróleo e mantém a Ucrânia em segundo plano das preocupações americanas. A China ensaia o braço de ferro com os Estados Unidos e eventualmente algumas armas do novo arsenal. Afina a estratégia de recolha de informações e de guia por satélite de ataques de precisão e mantém o apoio a Teerão de forma mais o menos clara, mostrando aos EUA que tem sempre uma palavra a dizer na nova organização mundial.

A América não está preparada para não ganhar esta guerra e Trump poderá ainda ter a tentação de subir a fasquia para um ataque nuclear tático. Se o fizer, abre a ‘caixa de Pandora’ e dará a Putin mais um argumento para tentar acabar com a guerra na Ucrânia da mesma forma. O grau de destruição aceitável para o Irão será a nova bitola para as guerras de hoje.

O mundo está decididamente muito mais perigoso e percebemos que os grandes jogadores nem sempre pensam nas consequências de cada movimento num tabuleiro demasiado inclinado para que todas as peças se mantenham de pé.

As próximas semanas, talvez meses, dirão como Trump vai sair deste problema. Mais preocupante do que isso, é saber como todos nós ficaremos neste novo mundo e quanto é que isso nos vai custar e mudar.

O equilíbrio internacional mudou, mas não sabemos de todo como vai ficar.

A pergunta que se vai fazer pode ter uma resposta muito complicada:

E se a América não ganha mesmo esta guerra?


© SOL