A parábola dos talentos da igreja

A Comissão Episcopal Portuguesa, decerto iluminada pela sabedoria do Espírito Santo, decidiu baixar para menos de metade o valor das indemnizações que a Igreja irá pagar às vítimas de padres pedófilos. Foram apresentados argumentos jurídicos para pagar menos, o que parece ser uma interpretação peculiar da frase de Jesus sobre Deus e César. Ou seja, não há que confundir as obrigações espirituais da Igreja com as suas obrigações civis.

Por fim, o presidente da CEP, o bispo Dom José Ornelas, recordou que “a Igreja em Portugal não é uma Igreja rica”. Aqui entramos num domínio complexo que combina a ética cristã com as finanças. Ou melhor, a ética cristã parece depender das finanças. Uma Igreja rica pode dar-se ao luxo de ter elevados padrões morais; uma Igreja pobre não. Concluindo, a riqueza e a pobreza de espírito dependem do dinheiro.

Se pensarmos na parábola do rico, do camelo, do buraco da agulha e do Céu, isto pode fazer sentido. Como a parábola pretende dizer que o apego aos bens materiais afasta o homem de Deus, Dom José Ornelas até deveria ter ficado contente por a Igreja portuguesa, depois de pagar as quantias inicialmente previstas, se aproximar mais dos ensinamentos de Jesus. No entanto, a CEP considerou que neste caso podia contrapor a Parábola dos Talentos, na qual Jesus elogia os servos que souberam fazer render as moedas recebidas. Ora, se há quem saiba fazer render moedas de Euros e Dólares é a Igreja Católica, tendo tido grandes génios das finanças como o arcebispo Paul Marcinkus e Roberto Calvi, além de instituições financeiras respeitáveis como o Banco Ambrosiano onde figuras dignas de O Padrinho fizeram bons investimentos.  Assim sendo, não ficaria o dinheiro melhor entregue à Igreja portuguesa do que às suas vítimas – as quais, sabe-se lá como o iriam gastar?

Nunca é de mais recordar que o dinheiro pode corromper as almas: Judas vende Jesus, os irmãos de José também o vendem, o servo de Eliseu tenta enriquecer à custa da doença alheia e o jovem rico prefere o dinheiro a seguir Jesus. Na Bíblia, são raros os que sabem fazer bom uso do dinheiro – ainda não havia nada parecido ao Banco Ambrosiano e aos referidos génios das finanças.

Isto leva-nos à questão central deste escândalo de abusos sexuais por padres católicos.

Se o dinheiro pode corromper as almas, a CEP concluiu que pagar indemnizações às vítimas de pedofilia irá provavelmente fazer-lhe mais mal do que bem. Ora, depois de ter encoberto tantos casos de abusos sexuais, depois de ter tratado as vítimas com tanto desprezo, a CEP considerou que já era altura de mostrar empatia pelo sofrimento das vítimas. E só não se recusou a pagar um cêntimo que fosse, ou até mesmo tentou que fossem as vítimas a pagar-lhe para se livrarem de tentações e aprenderem a ficarem caladinhas, porque, enfim, não se pode exigir tanta santidade destes homens.

Mas, como a Igreja é feita de homens, nem todos são perfeitos. Se alguns padres abusam de menores, outros fazem coisas ainda piores. Os Jesuítas, sem a menor consideração pelo mal que o dinheiro fará às vítimas, anunciaram que vão pagar tudo o que fora previsto.


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