Pedro, o católico (quando dá jeito)

Assistimos, com a perplexidade de quem observa uma aparição mariana num comício do PSOE, ao mais recente prodígio da era sanchista: a transubstanciação do ateísmo militante em ‘devoção’. Para o inquilino do Palácio da Moncloa, o catolicismo é item de consumo sazonal, como as alpargatas no verão, e o Cardeal Pierbattista Pizzaballa não é um sucessor dos Apóstolos, é o mais recente parceiro de coligação, um ‘compañero de viaje’ que tem a vantagem de não pedir ministérios nem lugares no conselho de administração da Telefónica.

O presidente do governo espanhol que não faz o sinal da cruz nem por decreto, descobriu que o Evangelho dominical (desde que lido com os óculos da crítica virulenta a Israel) é um excelente programa eleitoral para o consumo interno da esquerda radical e para a projeção externa do ‘señor no!’.

A conversão de Sanchéz ao catolicismo no domingo de ramos e a sua súbita e inesperada preocupação com a ‘liberdade religiosa’ é de uma ironia que faz corar os santos de pedra da catedral de Almudena. Senão vejamos, quando o governo liderado pelos socialistas do primeiro-ministro Pedro Sánchez Pérez-Castejón comemorou o seu terceiro aniversário em meados de janeiro de 2023, os bispos católicos de Espanha assinalaram o evento com uma declaração de 108 páginas, destacando tudo o que consideravam ter corrido mal no seu país. «As relações entre a Igreja e o atual governo não têm sido fáceis – tem havido desacordo na maioria das áreas», afirmou Fran Otero Fandiño, editor-chefe do semanário católico Alfa y Omega. «É a primeira vez na nossa história democrática que um partido de extrema-esquerda detém o poder, levando o governo a dar prioridade a uma agenda ideológica significativa».

Quando a coligação entre o PSOE e o Podemos assumiu o poder em janeiro de 2020, o seu programa de 50 páginas deixou claro que pretendia conduzir a Espanha, país maioritariamente católico, numa direção liberal e secularizante. Foram aprovadas leis que secularizam a educação, liberalizam a eutanásia financiada pelo Estado, bem como foi incentivada a remoção de símbolos católicos de locais públicos. Embora Pablo Iglesias, admirador declarado do comunismo italiano e de Hugo Chávez, tenha deixado o governo em março de 2021, o Podemos permanece na coligação e o ritmo radical tem continuado. Uma ‘Lei Orgânica sobre Saúde Sexual e Reprodutiva’, aprovada pela Câmara dos Deputados, permite que as adolescentes a partir dos 16 anos possam recorrer ao aborto sem informar os pais. Criminaliza também as orações à porta das clínicas de aborto e introduz um registo de médicos que se recusem a interromper a gravidez. Além disso, a Conferência Episcopal espanhola critica veementemente a coligação governamental por ter perdoado separatistas detidos da Catalunha por ter concedido amnistia a membros condenados do movimento basco terrorista basco ETA. O presidente da Conferência Episcopal e arcebispo de Valladolid, Luis Argüello, considera que «já é altura de avançar para uma moção de confiança, uma moção de censura ou dar a palavra aos cidadãos».

Tendo este divórcio entre Governo e católicos espanhóis como pano de fundo ver o Patriarca Latino de Jerusalém, homem de paz e de palavras medidas, subitamente transformado no novo ‘guru’ ideológico do sanchismo causa perplexidade mesmo a quem está habituado a cabriolas políticas. Não sejamos ingénuos a Sánchez nunca interessou a ‘liberdade religiosa’, interessa-lhe validar a sua política externa anti-Israel. Sánchez não quer o batismo, quer o endosso. Se Pizzaballa diz o que quer ouvir então o Cardeal deixa de ser um ‘príncipe da Igreja’ para passar a ser um ‘consultor estratégico de ética internacional’. Na Moncloa, o ‘Pai Nosso’ foi substituído pelo ‘Pai Nosso que estais nas sondagens, santificado seja o meu mandato’.

Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer


© SOL