O risco do islamismo capturar o movimento curdo |
Há meio século que o movimento nacional curdo se distingue por uma orientação amplamente secular e social. Porém os últimos anos foram marcados por uma série de impasses estratégicos.
As tentativas de guerrilha urbana levadas a cabo pelo PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão, em várias cidades curdas em 2015 resultaram em pesadas derrotas políticas e militares.
Paralelamente, a experiência política do Rojava, na Síria, deparou-se com importantes restrições geopolíticas. Num contexto marcado pelo abandono parcial de alguns aliados ocidentais na Síria, o movimento curdo acumulou reveses militares, recuos ideológicos e incertezas políticas.
O horizonte escurece ainda mais com as declarações ambíguas do seu líder Abdullah Öcalan, encarcerado há vinte e sete anos, e as pressões dirigidas ao DEM Parti, formação laica pró-curda representada no parlamento turco. Se esta força política vier a ser dissolvida, tal como o PKK já foi dissolvido em maio de 2025, poderá abrir-se um vazio significativo na representação política curda.
Neste espaço fragilizado, o discurso religioso ganha terreno, oferecendo respostas simples a crises complexas. A fé torna-se um refúgio identitário, enquanto o moralismo religioso e os discursos antiamericanos e anti-israelitas, frequentemente formulados sob uma retórica ‘anti-imperialista’, são mobilizados como instrumentos políticos.
O caso do partido Hüda Par ilustra esta evolução. Representado pela primeira vez em 2023 por quatro deputados eleitos para o parlamento turco nas listas do AKP, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento do Presidente Tayyip Erdoğan, este movimento defende uma visão política inspirada na sharia e na umma - a união das comunidades muçulmanas - em vez de uma identidade nacional curda. Procura assim seduzir uma parte do eleitorado curdo desiludido com as orientações seculares e de esquerda do movimento nacional curdo. Em fevereiro passado, um dos seus deputados, Faruk Dinç, solicitou ao parlamento que as mulheres fossem atendidas exclusivamente por mulheres e não por médicos homens, uma interpelacão que se tornou quase comum num país considerado ‘laico’.
As origens do Hüda Par remontam ao final da década de 1970. Inspirado pela revolução islâmica iraniana, o Hezbollah turco tomou forma em 1979 em Diyarbakir, no Curdistão turco. Apesar das suspeitas de financiamento pelo Irão, a organização clandestina Hezbollah, distinta do movimento libanês com o mesmo nome, conduziu durante os anos 90 campanhas de assassinatos e sequestros que visavam, nomeadamente, jornalistas e intelectuais curdos. Tornada incontrolável, esta rede foi desmantelada pelas autoridades turcas no início dos anos 2000. Em 2012, antigos dirigentes fundaram o Partido da Causa Livre (Hür Dava Partisi), hoje conhecido como Hüda Par. Na sequência de uma amnistia em 2017, vários dos seus militantes foram libertados.
Embora o Hüda Par continue a ser marginal - com quatro deputados no parlamento turco -, a sua ascensão poderá anunciar uma reestruturação mais ampla do panorama político curdo e turco à medida que se aproximam as eleições de 2027. Ancara parece ver no islamismo político um possível contrapeso a uma tradição política curda historicamente marcada pelo secularismo e pelas reivindicações sociais, uma estratégia que se insere menos no pluralismo ideológico do que numa lógica de fragmentação.
Ao mesmo tempo, a circulação de ex-combatentes jihadistas que regressaram da Síria e as tensões geopolíticas no Médio Oriente alimentam a radicalização na região. A polarização regional, nomeadamente em torno do Irão, contribui igualmente para reforçar um clima propício a discursos religiosos politizados. Se esta dinâmica se confirmar, os seus efeitos poderão ultrapassar os limites da Turquia. A unidade interna do movimento curdo poderá ficar fragilizada, enquanto as correntes progressistas correrão o risco de recuar. À semelhança de vários países do Médio Oriente onde, após a revolução iraniana, os movimentos seculares ou de esquerda cederam terreno face às correntes islamistas, o espaço político curdo poderá, por sua vez, enfrentar esta mutação.Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer