Um vale sombrio e mortal

Em 1911, G. K. Chesterton escrevia que «[a] humildade é a mãe dos gigantes. Do vale, vêem-se grandes coisas; do cume, apenas pequenas coisas». O autor britânico referia-se ao facto de nos apequenarmos constantemente como um ato de grandeza, de humildade. Isto porque «as torres só parecem altas quando olhamos para cima; e os gigantes só são gigantes quando são maiores que nós».

Certamente, Chesterton não estaria a apelar ao cultivo de um sentimento de inferioridade inter pares; falava, isso sim, de uma pequenez em relação a gigantes, nomeadamente Deus. Mas também em relação aos nossos antepassados, em linha com o pensamento de Edmund Burke que descreveu o contrato social como uma parceria entre os mortos, os vivos e os que ainda estão por nascer. Os acontecimentos recentes no Reino Unido representam uma rutura despudorada com a tradição fundacional da civilização ocidental e há três que são suficientes para deixar este ponto claro: o corte nos jury trials, o fim da hereditariedade na Câmara dos Lordes e a substituição de figuras históricas por fauna e flora nas notas emitidas pelo Banco de Inglaterra.

Vejamos primeiro a questão judicial. Os jury trials são deliberações de um júri composto por um conjunto de cidadãos comuns e não de um juiz, que apenas regula a parte legal do caso concreto. Para nós, que vivemos num ordenamento jurídico decorrente da tradição romano-germânica, este conceito pode parecer-nos estranho, mas é uma das pedras basilares da Common Law. Na semana passada, o ministro da Justiça David Lammy avançou com reformas que ditam o fim desta tradição para crimes passíveis de penas inferiores a três anos. A defesa mais potente e elegante dos jury trials foi apresentada por Geoffrey Cox, deputado do Partido Conservador e ex-Procurador-Geral, que se dirigiu à Câmara dos Comuns de uma forma que faz lembrar outros tempos da política britânica em que a eloquência, a profundidade e a erudição eram um lugar-comum. A sua ideia pode resumir-se numa declaração mais simples que deu ao The Telegraph: «Prefiro confiar em 12 pessoas comuns, com o seu bom senso (…), do que num advogado que passou 30 ou 40 anos sentado no mesmo lugar». O conservador conclui que os jury trials constituem «um direito fundamental» e são «uma característica distintiva da identidade deste país».

Quanto às outras duas decisões, pode pensar-se, à primeira vista, que medidas meramente simbólicas e que correspondem ao natural avanço da História. No final do dia, pode pensar-se, a Câmara dos Lordes já não é mais que um mero adereço decorativo do corpo político do Reino Unido e um vestígio de tempos passados de desigualdade que não cabe no mundo da modernidade. E as notas continuarão a ser notas, quer tenham um retrato de Churchill ou de um esquilo. Isto é o que se vê. Mas há algo que não se vê no imediato. Não poderei traçar ao detalhe a importância e as raízes históricas da aristocracia britânica e, por isso, socorro-me de uma passagem concisa de Enrique García-Marquez, a escrever para o Diario de Cadiz: «os títulos hereditários (…) serviam para recordar que o poder não advém apenas do número, mas também da história, da continuidade e do dever». Mais uma vez, isto pode ser estranho quando visto à luz da modernidade, mas, como relembra ou autor, esta orgânica milenar provou-se eficaz e foi propugnada por Cícero, São Tomás de Aquino, Burke e Tocqueville.

Quanto à alteração na simbologia das notas, parece-me que há pouco mais acrescentar. Todas estas decisões têm um denominador comum: a busca frenética pela igualdade que acaba por deslizar inevitavelmente para um desdém pela tradição, pela História e, em última análise, pela liberdade. Trata-se de uma arrogância de quem se crê no cume da História, uma posição que lhes permite negar a existência dos gigantes e, naturalmente, descartar a sua sabedoria. Pedindo emprestada uma passagem a Churchill, «o nosso povo (…) atravessa um vale sombrio e mortal».


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