Em defesa da cultura Ocidental |
«O discurso de Marco Rubio», disse Alexandria Ocasio-Cortez a propósito da intervenção do Secretário de Estado dos EUA em Munique, «foi um apelo puro à cultura Ocidental». Seria necessária uma imaginação invulgarmente fértil para conjecturar a frase que escreverei de seguida, mas aqui vai: concordo com Ocasio-Cortez. Está certa. O discurso de Rubio foi indubitavelmente uma ode à cultura e à civilização Ocidental. Mas se por acaso começarmos a acreditar que AOC recuperou o bom senso e fez, por fim, um juízo decorrente do mais elementar discernimento, paremos por um segundo. Nem a imaginação mais prodigiosa deixa de encontrar limites. Naturalmente, a congressista democrata refere-se com desdém à “cultura Ocidental”, imputando-lhe um carácter pejorativo. Sem grande surpresa, a afirmação foi uma tentativa de arrumar as declarações de Rubio no compartimento do fanatismo, da intolerância, e de todas as outras infâmias que estão associadas ao que a própria classifica como whiteness, ou cultura branca.
Um ano depois do discurso do vice-presidente J. D. Vance na Munich Security Conference, foi a vez do seu companheiro de executivo, figura que tem vindo a merecer cada vez mais destaque, aterrar no velho continente para emitir mais um alerta aos aliados europeus. Mas Rubio foi mais longe que Vance. Se este frisou a importância dos valores que compõem o chão comum da aliança ocidental de uma forma generalizada, aquele veio aprofundá-los. Primeiro, faz uma inevitável referência ao comunismo que dividiu não só a Alemanha, mas o continente durante a segunda metade do século XX. Ultrapassado esse inimigo comum e mortal, Rubio denuncia a tese do “Fim da História”, popularizada pelo cientista político norte-americano Francis Fukuyama e, ainda que este último seja mal interpretado com alguma regularidade, porque julgado através de uma caricatura criada a partir apenas do título, a verdade é que o que Rubio diz de seguida é dificilmente disputável: acreditou-se, um pouco por todo o Ocidente, que «todas as nações seriam agora democracias liberais; que os laços formados apenas pelo comércio e pelos negócios substituiriam agora a nacionalidade; que a ordem global baseada em regras – um termo excessivamente utilizado – substituiria agora o interesse nacional; e que viveríamos agora num mundo sem fronteiras, onde todos se tornariam cidadãos do mundo».
Essa esperança esboroou-se. E foi precisamente isso que Rubio quis transmitir no seu discurso: por favor, parem com isso; estão a prejudicar os EUA, estão a prejudicar-se a vocês, Europa, e, naturalmente, saímos todos prejudicados enquanto companheiros na missão de defender os valores que nos unem umbilicalmente.
Da segurança nacional à imigração em massa, passando pela indústria, Rubio dificilmente poderia ter articulado melhor um discurso que tivesse por objetivo condensar a nossa herança partilhada. Neste sentido, há uma passagem que merece ser citada na íntegra: «Foi aqui na Europa que nasceram as ideias que plantaram as sementes da liberdade que mudaram o mundo. Foi a Europa que deu ao mundo o Estado de direito, as universidades e a revolução científica. Foi este continente que produziu os génios de Mozart e Beethoven, de Dante e Shakespeare, de Michelangelo e Da Vinci, dos Beatles e dos Rolling Stones. E é aqui que os tetos abobadados da Capela Sistina e as torres imponentes da grande catedral de Colónia testemunham não apenas a grandeza do nosso passado ou a fé em Deus que inspirou essas maravilhas. Eles prenunciam as maravilhas que nos aguardam no futuro».
Liberdade, busca pela verdade, separação de poderes, progresso científico e tecnológico, arte e beleza. É, pois, natural que AOC e semelhantes defensores do terceiro-mundismo desprezem a cultura Ocidental. O que reforça ainda mais a importância de a defendermos. Veremos se a Europa entendeu.