A capital da UE é, e deve ser, Bruxelas
Giorgia Meloni propôs há sensivelmente um ano que a capital da União Europeia passasse a ser Roma. Porque «Roma», disse à data a primeira-ministra italiana, «com a sua rica herança como centro do Império Romano e berço do Cristianismo, é o símbolo perfeito da identidade que unifica o continente, e sua centralidade histórica reforça a ideia de que a cidade tem a legitimidade e o poder para abrigar as instituições da UE». Mais: «a capital da União Europeia não pode ser o lugar mais conveniente para instalar escritórios, mas sim o lugar que representa a sua identidade milenar».
O argumento de Meloni não é, de todo, descabelado. As razões apontadas estão corretas. A civilização ocidental, que tem como berço o Velho Continente, assenta em vários pilares, sendo que dois dos mais importantes são os romanos e os cristãos. No que diz respeito a estes últimos, foram a principal revolução da História que colocou as sementes para o que hoje conhecemos como liberdades individuais. A desconfiança em relação ao poder e à sua centralização e acumulação, a liberdade de consciência e de expressão, a tolerância e a concepção de que todas as vidas têm o mesmo valor não foram, por espantoso que isto possa parecer à luz do quadro mental moderno, obras secularistas e puramente racionalistas. Por isso, a capital italiana seria uma das cidades mais indicadas, se não a mais indicada, para assumir o estatuto de coração da Europa.
Mas o rumo da União Europeia, que há muito deixou de ser uma comunidade voltada apenas para a livre circulação de mercadorias e de pessoas e manutenção de relações pacíficas entre os Estados, é cada vez mais divergente daquele que este legado civilizacional simboliza. Primeiro, porque se envergonha dele. Depois, porque ameaça os valores que dele herdámos, nomeadamente os mencionados no parágrafo anterior. Existe um claro impulso de centralização do poder, triturando inevitavelmente no processo a soberania nacional dos Estados-membros em nome de uma suposta democracia federal e coletiva na Europa. Ora, para existir esta democracia coletiva, primeiro teria de existir um demos europeu homogéneo, algo que não existe. Uma conclusão à qual chegamos com recurso a uma módica quantia de esforço mental.
Da abordagem à imigração ao aperto do controlo nas redes sociais, passando por tentativas passadas de construção de um aparelho constitucional europeu, por iniciativas de alarmismo climático injustificado e por uma burocracia hipertrofiada altamente penalizadora dos europeus, a UE não é a Europa de que Meloni falava. É, isso sim, e como lhe chamou o jornalista norte-americano George F. Will numa coluna para o Washington Post escrita em 2016 (An Independence Day for Britain?), um «leviatã insípido» que «tem uma bandeira a que ninguém presta homenagem, um hino que ninguém canta, (…) um parlamento ao qual ninguém, a não ser os seus próprios membros, deseja que tenha mais poder (que deve ser retirado às legislaturas nacionais), (…) uma moeda que pressupõe algo que não existe nem deveria existir (um governo central europeu responsável pela política orçamental), e regras de conduta orçamental (limites aos rácios dívida/PIB) que poucos ou nenhum dos membros cumpre e cujo incumprimento nunca foi sancionado».
Para além disto, Will escrevia ainda que a União Europeia tem «uma capital de burocracias coaguladas que ninguém admira nem controla». Por isto mesmo, o cinzentismo de Bruxelas, com os seus inúmeros edifícios de betão e de vidro e uma meteorologia que pode ser desmoralizante, enquadra-se melhor que o sol mediterrânico de Roma no conceito de capital de um projeto europeu que pouca luz emana e que dificilmente pode ser considerado moralizador.
