O Matuto e o Café com Cheirinho |
O Matuto é do tempo do ‘café com cheirinho’, esse ritual quase clandestino em que a rotina ganhava brilho de cumplicidade. Havia algo de mágico naquele momento em que o empregado da pastelaria esticava o braço para debaixo do balcão, enquanto nos lábios lhe nascia um sorriso maroto que parecia dizer: “como eu te entendo”. E então dava-se a metamorfose: a mais nobre das pastelarias descia, por um instante, à condição da mais banal das tabernas (boteco, no Brasil, por favor), e o mais distinto dos fregueses convertia-se, sem cerimónia, num virador de copos. Era esse o pequeno milagre que um ‘café com cheirinho’ operava.
Havia, nesse gesto miúdo, qualquer coisa do Café de Rick, em Casablanca. Vem-nos à memória Humphrey Bogart ao balcão, depois de reencontrar Ingrid Bergman: um copo diante de si, o olhar perdido, os dedos pousados com desatenção no vidro, como se ali se condensassem a fadiga do mundo, a ironia dos encontros e o peso inevitável das despedidas. Daí nasce o desabafo eterno: “De todas as tascas, em todas as........