O Matuto e o Café |
O Matuto gosta imenso de café. Não é amor espiritual — é necessidade fisiológica com verniz cultural. Embora a planta tenha origem africana (a lenda do pastor e das suas cabras eléctricas continua deliciosa), foi no Iémen que começou a ser cultivada. Chamavam-lhe Kaweh, isto é, “força”. O Matuto confirma. Qualquer português que vampirescamente suga a sua bica matinal sabe que há ali uma força que ressuscita mortos de segunda-feira.
Na ‘Casa das Pontes’ o café não se bebe: administra-se. A primeira chávena impõe silêncio respeitoso; a segunda devolve a fala; a terceira produz convicções filosóficas.
O Matuto acha curiosa a Cantata do Café (BWV 211), composta por Johann Sebastian Bach por volta de 1733. Nessa pequena opereta satírica um pai conservador tenta arrancar a filha, Lieschen, do vício escuro. Ele ameaça, proíbe, moraliza. Ela responde com serenidade cafeinada: prefere perder pretendentes a perder o café. O conflito é doméstico e eterno — a tradição contra a chávena fumegante. No fim, vence a dependência elegante.
O Matuto suspeita que a civilização se construiu menos sobre grandes ideias e mais sobre pequenos vícios toleráveis.
Mais intrigante ainda é a história de Francisco de Melo Palhete, Sargento-Mor ao serviço da Coroa Portuguesa. Homem de mapas e rios, enviado para delimitar fronteiras, acabou por delimitar o paladar do Brasil. Foi ele quem trouxe, em 1727, a primeira muda de café da Guiana Francesa para o Pará. Conta-se que a recebeu clandestinamente das mãos singelas — e decididas — de Madame Sophie d’Orvilliers, esposa do governador francês Claude d’Orvilliers.
As más-línguas garantem que a gratidão da Madame teve calor diplomático.
O Matuto ouviu dizer que antes dos terramotos os cães uivam sem motivo, os galos cantam que nem uns condenados e o bronze dos sinos emite um silvo de réptil. Ora, ladraram cães, cantarem galos e silvaram bronzes quando Francisco viu Sophie. Nunca tinha visto mulher tão bela. Nem tão estrategicamente generosa. Cabelo louro, pele do tom exacto do mel no favo, olhos azuis capazes de prometer bonança e insinuar tempestade. Uma beleza serena, mas de força. Força igual à do Kaweh.
Quando tocaram discretamente as mãos, passou entre os seus dedos uma linguagem de calor e convicção. Não era só sedução — era energia. Certa noite, Francisco aventurava-se apaixonado no quarto de Sophie, quando se ouviram passos bélicos no corredor. Ela, sem perder a compostura, enfiou-lhe várias sementes e cinco mudas da planta de café, nos bolsos, enquanto o Lusitano alçava o corpo pela varanda. Houve ali força — a da planta e a das mãos que a ofereceram.
Cavalgando pela noite dentro, Francisco contrabandeou para o Brasil mais do que uma muda: trouxe um hábito. Trouxe cafeína.
Na ‘Casa das Pontes’, enquanto a chaleira sibila discretamente, o Matuto observa que há vícios que entram pela porta da frente e outros que saltam pela varanda. O café entrou pelo romance.
O Sr. Rocha diria, coçando a careca, que foi um gesto geopolítico. A Belinha, sempre a conservadora de serviço, diria que foi fraqueza masculina. A Dona Sirlei, mais práctica, lembraria que homem nenhum escala uma varanda sem incentivo convincente. O Matuto prefere notar que a força do Kaweh entrou no Brasil pelas mãos de uma mulher — e nunca mais saiu das chávenas.
O Matuto conclui que o Brasil foi fundado a açúcar, café e pecado leve — e talvez por isso acorde intenso. A força do Kaweh foi plantada na terra, mas floresceu nas mãos das mulheres.