O Matuto e o Bolo de Bolacha
Desconfia de pratos que chegam à mesa com nomes em francês, de colherzinhas inclinadas a 37 graus e de empregados que explicam o doce como se estivessem a traduzir um manuscrito medieval. Tudo isso lhe parece uma alegre algazarra sem substância. Tagarelices!
Ora, o bolo de bolacha não explica nada. Apresenta-se. E isso basta.
Enquanto por aí desfilam sobremesas conventuais de pedigree — a baba de camelo com o seu ar indeciso entre o zoológico e a pastelaria, os ovos moles que parecem concebidos num laboratório barroco de açúcar, a mousse de chocolate com pretensões existenciais — o bolo de bolacha mantém-se firme, silencioso, na sua simplicidade.
Não pede licença. Entra.
O Matuto olha para aquilo como quem contempla uma catedral feita de coisas humildes: camadas e mais camadas de bolacha Maria, essas torres marianas erguidas com disciplina monástica, embebidas num café que não é apenas líquido — é memória, é manhã, é avó, é conversa boa.
Cada bolacha mergulhada é um pequeno batismo. Sai seca, entra mole. Sai banal, entra gloriosa.
E depois há o creme — esse intermediário entre o céu e a colher, que não........
