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O Matuto e o Bolo de Bolacha

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28.04.2026

Desconfia de pratos que chegam à mesa com nomes em francês, de colherzinhas inclinadas a 37 graus e de empregados que explicam o doce como se estivessem a traduzir um manuscrito medieval. Tudo isso lhe parece uma alegre algazarra sem substância. Tagarelices!

Ora, o bolo de bolacha não explica nada. Apresenta-se. E isso basta.

Enquanto por aí desfilam sobremesas conventuais de pedigree — a baba de camelo com o seu ar indeciso entre o zoológico e a pastelaria, os ovos moles que parecem concebidos num laboratório barroco de açúcar, a mousse de chocolate com pretensões existenciais — o bolo de bolacha mantém-se firme, silencioso, na sua simplicidade.

Não pede licença. Entra.

O Matuto olha para aquilo como quem contempla uma catedral feita de coisas humildes: camadas e mais camadas de bolacha Maria, essas torres marianas erguidas com disciplina monástica, embebidas num café que não é apenas líquido — é memória, é manhã, é avó, é conversa boa.

Cada bolacha mergulhada é um pequeno batismo. Sai seca, entra mole. Sai banal, entra gloriosa.

E depois há o creme — esse intermediário entre o céu e a colher, que não........

© SOL