Seguro esmagador

Nota prévia: Era evidente que a ministra da Administração Interna não poderia aguentar o enxovalho pessoal por que ia passar se comparecesse no debate parlamentar quinzenal. Nem o primeiro-ministro tinha como a resguardar. Estava à vista desde a sua chamada que Maria Lúcia Amaral tinha ainda menos jeito para o lugar do que a sua antecessora, o que era difícil. Horas antes da demissão, as Forças Armadas deram, por alegada pressão de Marcelo, o seu chefe supremo, uma inédita conferência de imprensa a desresponsabilizarem-se pela inegável desorganização em que estamos e a evidente falta de antecipação. Agora, o mais lógico e curial é a pasta e a coordenação direta manterem-se umas semanas com Montenegro. Provavelmente, não cairia bem a Seguro nem a Marcelo uma mexida dessa importância em vésperas da transição. Montenegro tem vantagem em esperar e aproveitar o novo ciclo para remodelar, ou mesmo para escolher tão-só o novo titular. É desejável que pense muito bem nas sua(s) escolha(s), uma vez que, desse ponto de vista, não se pode dizer que seja dotado de grande ‘feeling’. Uma das cautelas elementares a ter muito em conta é não confundir cumplicidades político-partidárias e pessoais com lugares de governo e de Estado, a fim de ele próprio não ficar depois fragilizado. Veremos…

1.A vitória de Seguro foi avassaladora. Não há como torturar os números. Juntou todo o eleitorado moderado de direita e de esquerda e franjas radicais tipo Bloco e Livre. Foi buscar mais 400 mil votos a Mendes, Gouveia e Cotrim, após ter ganhado à vontade a primeira volta. Os eleitores aderiram sem stress e berros. Os votos brancos e nulos cresceram, mas não viraram um problema da democracia. Seguro ultrapassou a votação global de Soares, mas ficou atrás dele se retirarmos o resultado dos emigrantes, que, em 1986, ainda não votavam (as freguesias que faltam não alterarão isso). A postura, o passado, a seriedade política e intelectual e a capacidade de ter vida própria fora do sistema foram a soma positiva que justificou a confiança massiva dos portugueses. Este capital coloca sobre os seus ombros uma enorme responsabilidade quanto à gestão dos seus poderes, simultaneamente limitados e drásticos. A experiência de vida torna Seguro diferente dos seus antecessores. Conhece melhor, por ser o dele anos a fio, o quotidiano português. Mas não há como antecipar o desempenho. Esperemos que esteja à altura dos seus antecessores democráticos, mesmo sabendo que o mundo de hoje cada vez mais complexo. Fez bom uso do seu pecúlio logo no discurso de vitória. Disse ao que vinha, exigindo do governo trabalho e resposta no terreno à devastação dos temporais. 

2. Dava vontade de ser mosca para ver as caras de Costa, Sócrates e acólitos perante a dimensão extravagante da eleição de Seguro. Levantou para a corrida com 4,7%. Aterrou com 66,8% e 3,5 milhões de votos. Foram eles os grandes derrotados do dia 8 que consagrou Seguro e deu a Ventura um resultado muito relevante. 

3. No domingo, André Ventura esperou pela vitória do seu Benfica. Só depois falou ao país sobre as presidenciais. Em minutos despachou as cortesias da praxe com educação. Voltou logo a ser só o líder do Chega, candidato a primeiro-ministro, inimigo do PPD/PSD de Montenegro e último incondicional do passismo. Nem de propósito, três dias depois, a renúncia da ministra da administração interna deu ainda mais sonoridade ao seu verdadeiro objetivo: governar. Ventura tem um discurso afinado e poderoso. É certeiro em muitas matérias. É um estatista nas promessas aos descamisados, tal como Paulo Raimundo. Foi com esse discurso neocomunista que se consolidou nos antigos feudos do PC. Hoje é mais abrangente e vai crescendo. Mesmo assim, desta vez, as coisas não lhe correram como queria. Falhou o argumento de adiar as eleições, pois a ida às urnas foi ampla (muitos comentadores desconhecem que o universo das presidenciais é inferior ao das legislativas). Agarrou-se à percentagem de votos superior à da AD como consolação. Porém, ficou a 200 mil de Montenegro. Não ganhou um único distrito, mas ficou à frente na emigração. Só ganhou duas das 3091 freguesias, uma em Elvas e outra na Madeira. Queria mais, claro. Inicialmente queria um candidato que lhe evitasse nova derrota após a das autárquicas. Ninguém se sujeitou. Todavia, Ventura não pode ser desvalorizado. Nem desanima. Sabe que o tempo corre a seu favor, sempre que o governo ou um autarca falham, o que já é rotina. A ideia da estabilidade durante três anos é para ele um pesadelo. Tem pressa, mas não pode precipitar-se. Não pode deixar repetir, em legislativas, uma aglomeração tipo Seguro. É a ele que mais convém acelerar o calendário, sendo que a legião de boys do PS também precisa dessa vitamina. Montenegro viverá no fio da navalha, até porque Seguro tem um passado de determinação, que, em caso de crise, não o torna tão maleável como alguns pensam.


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