Montenegro não serve, mas… serve-se |
Este artigo constitui mais um alerta sobre liderança, ética e o risco da mediocridade política. Ao observar o atual momento político português, chego a uma inevitável conclusão: Luís Montenegro não serve para primeiro-ministro. Vivemos, em minha opinião, uma profunda fragilidade no atual ciclo político. Portugal tem hoje um Presidente da República cuja obsessão política é a ‘estabilidade institucional’. Em teoria, estabilidade é uma virtude. Na prática, pode transformar-se numa armadilha estratégica quando passa a justificar a tolerância perante lideranças fracas.
Lembro-me de António José Seguro, nos tempos da licenciatura no ISCTE. A memória desse período não é irrelevante. Pelo contrário: ajuda a compreender um traço que continua a marcar o seu perfil político – uma grande dificuldade em produzir resultados concretos. Recordo episódios em que, perante disciplinas que não conseguia concluir, implorava aos professores que o aprovassem. Acabou por desistir de fazer a licenciatura naquela fase.
Isto não é um detalhe biográfico menor. Revela um padrão: a dificuldade em enfrentar exigência e competição real. Quando alguém com esse perfil assume a chefia do Estado é natural que privilegie acima de tudo a estabilidade, mesmo que essa estabilidade signifique tolerar um governo fraco. O Governo é fraco porque Luís Montenegro não compreende o que é reformar Portugal. Reformar Portugal exige algo muito específico:
• Compreender a natureza estrutural da economia portuguesa;
• enfrentar a burocracia crónica do Estado;
• reformar os sistemas que bloqueiam produtividade;
• alterar profundamente incentivos na administração pública;
• entender a necessidade de descentralização e regionalização.
Nada no percurso político de Luís Montenegro revela capacidade para esse tipo de reforma. Portugal não precisa de gestão corrente. Precisa de ‘cirurgia institucional’, e essa cirurgia exige:
• independência face às redes partidárias.
Montenegro não tem demonstrado nenhuma destas características. A parte mais preocupante não é apenas a insuficiência política. É a confusão entre interesse público e interesse privado. O episódio envolvendo a empresa Spinumviva é ilustrativo. O primeiro-ministro utilizou pareceres produzidos pelos serviços jurídicos do Estado para fundamentar um recurso no Tribunal Constitucional relativo a um assunto pessoal: a divulgação dos clientes da empresa que fundou e que, entretanto, passou para os filhos.
Diversos especialistas consideraram essa utilização eticamente reprovável.
Entre eles: Paulo Veiga e Moura, especialista em direito administrativo, Luís de Sousa da Transparência Internacional e entre vários outros a politóloga Susana Coroado.
A crítica é simples e devastadora: um primeiro-ministro não pode colocar os recursos do Estado ao serviço de um litígio privado.
E um chefe de governo vive, antes de tudo, de autoridade moral. Quando essa autoridade se perde, o cargo fica vazio. Está uma vez mais patente a cultura dos jobs for the boys numa lógica onde: a política serve para distribuir favores, o Estado torna-se instrumento das redes partidárias e os recursos públicos são vistos como extensão do poder pessoal.
Nesse contexto, Montenegro encaixa perfeitamente. Não como reformador, mas como gestor de um sistema. E é por isso que a frase que melhor descreve a situação é simples: Montenegro não serve, mas serve-se.
Portugal enfrenta um problema recorrente: líderes suficientes para manter o sistema, mas limitados para o transformar. Luís Montenegro encaixa nesse padrão. Não representa rutura, representa continuidade burocrática.
A questão que mais me aflige prende-se com a atitude coletiva que parece, brandamente, conviver, sem grande exigência nem escrutínio, com este tipo de pessoas na liderança do espaço comum. Quanto tempo mais estamos dispostos a repetir este tipo de experiências com líderes fracos e impreparados? E que exemplo estão a dar as bases e as estruturas do PSD ao admitirem um líder que assim se comporta?
Não estão certamente a dar um bom exemplo ao país...
CEO do Taguspark, Professor universitário