Adeus, Coronel Kilgore!

A influência que em mim teve a obra-prima cinematográfica de Francis Ford Coppola foi extraordinária. O que para muitos dos meus amigos não passava de um bom filme de guerra, tornou-se uma das minhas obsessões. No tempo infindável da adolescência, via e revia Apocalypse Now até saber tantos diálogos de cor e descobrir os pormenores e as referências que escapavam naquela subida vertiginosa do rio. Mas este exercício não era o da mera repetição, antes me impeliu a novas descobertas. Dos aspectos técnicos militares, como as novas armas e tácticas utilizadas na Guerra do Vietname, às referências literárias, com o enorme Joseph Conrad à cabeça, passando naturalmente pela História contemporânea, mas também a muito antiga.

«A guerra é a origem de todas as coisas e de todas ela é soberana. A uns a guerra apresenta-os como deuses, a outros, como homens; de uns ela faz escravos, de outros homens livres», ensinou Heraclito. Apocalypse Now tornava-se, enfim, um tratado sobre a existência humana.

Nas minhas tantas viagens até ao coração das trevas, identificava-me com o Capitão Willard para depois admirar o Coronel Kilgore e, por fim, deixar-me hipnotizar pelo Coronel Kurtz. Eram claros arquétipos de homens de armas, moldados pela guerra, que pese embora todas as suas diferenças, tinham em comum a frieza implacável da vontade.

Pela marca profunda que deixou na cultura popular, custa a crer que Kilgore seja uma personagem que aparece menos de um quarto de hora no filme. Admirado pelos seus homens, representa simultaneamente a cavalaria do Velho Oeste, a tradição, e o estilo de vida californiano, a modernidade. A sua aura encandeia-nos logo que desce do seu Huey, o «cavalo de guerra» voador, com uma postura tão impecável como o uniforme, portando o característico chapéu de abas, onde brilham os sabres cruzados da sua arma, e a 1911 à cintura, com o seu punho em madrepérola.

Mas este oficial intemporal é, ao mesmo tempo, o companheiro que sabe a linguagem e os modos dos surfistas, além de ser o rei da festa no churrasco nocturno na praia, em que se recriava a Califórnia. No entanto, esta reprodução era contraproducente porque, como tão bem notou Willard, «quanto mais tentavam tornar este lugar igual a casa, mais faziam com que todos sentissem saudades».

A notável carreira de Robert Duvall foi longa e preenchida, o seu talento inegável revelou-se de forma extraordinária muitas vezes, mas ficará para sempre associado ao Coronel Kilgore, personagem tão bem encarnada que com ele se confundia, cujo papel ajudou a construir e que o actor gostou especialmente de interpretar. A inesquecível cena de Apocalypse Now que ficou conhecida pela frase «Adoro o cheiro do napalm pela manhã.» termina com uma afirmação enigmática que nos marca naquele ambiente explosivo: «Um dia esta guerra vai acabar.» A guerra de Duvall acabou no passado dia 16 de Fevereiro, aos 95 anos, e imaginei-o levado pelas valquírias para Valhalla, ao som de Wagner...


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