Porto, regresso ao futuro: cidade eterna em terreno fértil |
Se queremos um futuro vibrante, precisamos de atrair jovens não apenas como visitantes, mas como residentes, criadores e pensadores. Precisamos de lhes dar espaço, risco e oportunidade. O Porto sempre foi inconformado, e foi essa energia que o tornou resiliente e inovador».
Depois da conferência desta semana na Casa da Música, sob o título provocador ‘Porto: regresso ao futuro’, fiquei com uma inquietação difícil de ignorar. Daquelas que não ficam apenas na reflexão momentânea, mas que pedem continuidade. Talvez por isso me tenha surgido a vontade de revelar um pouco mais da Love Letter que escrevi ao Porto, no final do meu mandato quanto Vereadora, não como exercício de nostalgia, mas como compromisso com o que aí vem.
Escrevi-te como quem escreve a alguém que ama: com orgulho e admiração, mas também com sentido de compromisso com o teu futuro. Porque amar uma cidade não é apenas celebrá-la; é defendê-la e querer que cresça sem perder a alma.
O Porto tem sido um exemplo de transformação inteligente. Cresceu na cultura, na gastronomia, no turismo e na economia criativa. Afirmou-se como destino internacional e como cidade vibrante, capaz de conjugar tradição e inovação. Mas a pergunta que ecoou naquela sala permanece: o que significa, afinal, regressar ao futuro?
Para mim, significa não cristalizar.
Significa garantir que o Porto continua a ser palco de todas as formas de cultura não apenas das clássicas ou institucionalizadas, mas também das emergentes, urbanas, experimentais e híbridas. A cidade do granito e do vitral deve continuar a acolher o grafite, a arte digital, a música independente e os novos movimentos criativos que desafiam o presente. Uma cidade verdadeiramente cosmopolita não pode ter medo da diversidade estética, social e geracional.
Se queremos um futuro vibrante, precisamos de atrair jovens não apenas como visitantes, mas como residentes, criadores e pensadores. Precisamos de lhes dar espaço, risco e oportunidade. O Porto sempre foi inconformado, e foi essa energia que o tornou resiliente e inovador.
Regressar ao futuro não pode significar repetir fórmulas de sucesso até à exaustão. Significa garantir que o crescimento não sufoca a criatividade, que a atração de investimento não afasta talento local e que a cidade tecnológica não perde humanidade. Significa equilibrar turismo e comunidade, identidade e abertura.
Na minha carta de amor falava do mar indomável e das pontes altas. Hoje acrescento: as pontes também se constroem entre gerações, entre tradição e disrupção, entre o clássico e o contemporâneo.
O futuro do Porto não pode ser apenas sólido; tem de ser pulsante. Um lugar onde coexistem a filarmónica e o DJ, o azulejo e a instalação imersiva, o mercado tradicional e a start-up criativa. Uma cidade que não tem medo de se reinventar todos os dias.
Porque o Porto que amo não é apenas património. É um terreno fértil.
E é essa terra abundante, plural e viva que precisamos de proteger.