O SNS precisa de centros de saúde fortes para integrar melhor os cuidados |
Durante décadas, os centros de saúde foram apresentados como a porta de entrada do SNS. A expressão é correta, mas tornou-se insuficiente. Uma porta de entrada que apenas recebe, regista, encaminha ou renova pedidos não garante verdadeira resposta ao cidadão. Para que o SNS seja sustentável, os cuidados primários não podem funcionar como um mecanismo burocrático entre o utente e o hospital. Têm de ser centros clínicos de excelência, com capacidade real para resolver problemas, acompanhar pessoas, antecipar riscos e coordenar percursos.
Imagine-se uma pessoa idosa com diabetes, insuficiência cardíaca e mobilidade reduzida. Num curto espaço de tempo, passa pelo centro de saúde, pelo hospital, por várias consultas de especialidade e regressa repetidamente às urgências sempre que o seu estado se agrava. Quando tem alta, volta a casa com recomendações pouco claras, múltiplos medicamentos e sem saber exatamente quem contactar se piorar.
Este cenário tornou-se frequente. E nem sempre resulta apenas da falta de recursos. Resulta, muitas vezes, da forma como o sistema está organizado e da dificuldade em assegurar uma resposta contínua, próxima e responsabilizada.
A primeira reforma necessária é, por isso, a reformulação dos cuidados de saúde primários. Não uma reforma meramente administrativa, assente em novos organogramas, modelos de contratualização ou mudanças formais de designação. O que está em causa é uma mudança funcional: transformar os centros de saúde em unidades de elevada capacidade clínica, com equipas multiprofissionais, tempo assistencial adequado, autonomia organizativa, acesso a meios diagnósticos essenciais, sistemas de informação úteis e articulação direta com os hospitais.
Um centro de saúde de excelência deve ser capaz de acompanhar o doente crónico de forma longitudinal, identificar precocemente sinais de descompensação, rever terapêutica, intervir sobre fatores de risco, apoiar cuidadores, ativar respostas sociais e garantir seguimento após a alta hospitalar. Deve também conseguir distinguir o que pode ser resolvido localmente, o que exige apoio especializado programado e o que deve ser encaminhado com urgência.
Isto implica valorizar o papel do médico e da equipa de família como gestores clínicos do percurso do utente. O objetivo não é transformar os cuidados primários num filtro que dificulta o acesso ao hospital. Pelo contrário: é garantir que cada utente chega ao nível de cuidados adequado, no tempo certo,........