Educação

Não sei o que pensa Passos Coelho sobre Educação. E receio que a pretensa modernidade geradora de desigualdades via cheque-ensino regresse e venha a ser destruído o que já se alcançou.

A verdade é que o rápido desenvolvimento do sistema educativo público pela reforma de Veiga Simão, alargado no pós-25 de Abril, abriu as portas da escolaridade obrigatória e gratuita a milhares de estudantes. O acesso à universidade, comparticipado por propinas e modulado por bolsas de estudo, estava aberto a todos, em especial aos que revelavam bom trabalho no secundário. O resultado foi um acesso facilitado aos filhos de famílias instruídas, a par da procura de universidades privadas pelos que não conseguiam nota suficiente para acederem às públicas, normalmente oriundos de famílias menos afluentes. Mesmo assim, o país assistiu à emergência de muitos jovens de baixos rendimentos que vieram a ocupar lugares de relevo nas respetivas profissões e nos quadros dos partidos políticos. Houve realmente um elevador social.

Os EUA, nos anos que mediaram entre Roosevelt e Reagan, eram reconhecidos como a terra das oportunidades. Um vice-presidente da típica classe média, Harry Truman, ascendeu a presidente para suprir a morte do milionário Roosevelt. Um jovem sulista, Bill Clinton, filho de pai alcoólico e de uma senhora de profissão humilde, conseguiu graduar-se nas melhores universidades e ascender a governador e a presidente. Um sistema generoso de bolsas de estudo permitia aos de mais mérito ascender nos estudos.

No Reino Unido, no virar do século, Tony Blair enumerou as três prioridades do governo como sendo «Educação, Educação, Educação»: No entanto, o seu ideólogo Anthony Giddens, lembrava que boa parte dos estudos comparados demonstravam que a Educação tendia a refletir desigualdades materiais mais amplas e que estas deveriam ser atacadas na origem. Para obter ganhos de equidade, o Estado social deveria combater as desigualdades de nascimento.

Por seu turno, o valor da meritocracia ficou abalado quando um famoso artigo no Wall Street Journal, em 2020, relatou que algumas das mais prestigiadas universidades americanas aceitam alunos que são tudo menos brilhantes e cujos pais abastados estejam dispostos a despender quantias substanciais. Doações concentradas nos anos terminais do ensino secundário dos seus filhos.

Sob a égide do Estado social, temos cometido diversos erros na Educação: passámos da sobre proteção dos professores para o quase aviltamento da profissão; de propinas em universidades e politécnicos muito inferiores às dos estabelecimentos privados, a valores fixos, sem contemplação pelo aumento da despesa, pauperizando progressivamente o ensino superior público e reduzindo a sua autonomia; obrigámos universidades a acolherem investigadores em contratos prolongados, obliterando financeiramente o acesso de novas gerações; não nos esforçámos por anular a endogamia na seleção de professores; não utilizámos em plenitude o estatuto fundacional. Porventura descurámos o secundário e pouco ou nada fizemos contra a prática das explicações necessárias ao sucesso escolar e terríveis marcadores de desigualdades pelo elevado custo para as famílias, como muito bem nos alertou o estudo de Susana Peralta e outros. A ler.

Apesar de tudo, universidades e politécnicos cumpriram em geral a sua missão com mérito, aumentaram decisivamente a produção científica com base nos indicadores disponíveis e cumpriram a missão implícita de promoverem o desenvolvimento regional e a fixação de diplomados. E sobretudo criámos e generalizámos o pré-escolar, tentando ir ao âmago das desigualdades. Indubitavelmente, o nível geral de Educação e preparação profissional deu um salto de séculos, em cinquenta anos. Modernizemos, sim, mas não estraguemos o adquirido.


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