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A Condição Humana depois da Condição Humana

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30.03.2026

O livro de Hanna Arendt, A Condição Humana (Relógio d’Água, 2001) coloca-nos em face de algumas palavras, de alguns conceitos que, neste tempo acéfalo e digital em que nos encontramos, convém lembrar. Ao distinguir entre «Vida Activa» e «Vida Contemplativa», Arendt considera que é a vita activa (o labor, o trabalho e a ação) o que define o humano nas suas fundações.

O labor é a atividade correspondente ao processo biológico humano – o seu corpo e metabolismo, do nascimento ao declínio – e, por isso, o labor é a vida em si. O trabalho é o artificialismo da existência humana: «a condição do trabalho é a mundanidade», escreve. A ação, por sua vez, é o exercício direto entre os homens, sem mediação das coisas. É a «pluralidade» e, como o Homem vive sobre a Terra, todos os aspetos da sua ação dizem respeito à polis. No latim, para os romanos, é essa pluralidade que define o próprio ideal político e, consequentemente, o ideal de vida: viver é «estar entre os homens» e morrer é «deixar de estar entre os homens», o que, no fundo, faria aproximar-se a ideia de vida da ideia de política, pois ser-se homo politicus seria já participar das coisas do Homem; coisas que, na tradição cristã, depois da criação do Homem (Adam) devem a sua existência à multiplicação, energia mesma da ação.

Portanto, para a autora de Eichmann em Jerusalém «a acção, na medida em que se empenha em fundar e preservar os corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a História» (p.21). Se a natalidade e mortalidade são os eixos da vida humana – ser mortal rodeado de imortalidade, desde os deuses ao Deus dos monoteísmos – vale dizer que o labor é o que assegura a espécie na sucessão de seres que vão nascendo e o trabalho – a cultura, a criação de artefactos – assegura à futilidade da nossa vida um certo sentido, pois pelo trabalho é o que tende a combater a impermanência humana com a permanência dos objetos e das criações culturais. A cada novo trabalho o homem recomeça. Por isso também o labor e o trabalho têm raízes na natalidade e não na mortalidade. Vida activa é, no pensamento de Arendt, o que existe porque é feito exclusivamente pelo homem. Vida contemplativa é outra expressão: remete para a tradição, para o julgamento de Sócrates, para o conflito entre a ‘polis’ e o filósofo. Em Agostinho é a vida que abraça o «otium». Em Cícero e Horácio é a vida digna: «otium cum dignitate» quando viver era considerar a existência para além do labor e do trabalho. Na perspetiva de Aristóteles, o «labor» é o modo de vida do escravo («coagido pela necessidade de permanecer vivo»); e não menos livre seria a vida do trabalhador (os artesãos) e dos mercadores, afeitos à vida aquisitiva.

Logo, vidas do «negócio», da «negação do ócio», existências excluídas do «belo», sendo o «belo» o não necessário nem útil, aquilo que é já da ordem da contemplação, da «magna quies», da quietude, patamar máximo do prazer – a vida do filósofo entregue à contemplação e que, na relação com a política e a cidade exige que as coisas do mundo não perturbam essa vida dedicada à investigação e propensa à dignidade porque liberta das paixões. Em bom rigor, desaparecida a cidade-estado (para Arendt Agostinho é o último a ver esse tipo de organização), a expressão «vita activa» passou a dizer respeito a todo o trabalho inscrito nas coisas deste mundo. No platonismo a vida contemplativa manter-se-á como existência ideal, e, por causa disso, utopia: Sócrates é o modelo da vida impossível: nele acabam as ambições do político, porque ele é a encarnação da verdadeira liberdade: ele é e está no campo da apolitia e da a-skholia.

Perdoe-me o leitor por esta viagem – lacunar, necessariamente – a um dos livros que releio por estes dias de ressaca eleitoral. É que, pensando sobre este nosso tempo, quando já sobre as palavras cai a mais penumbrosa idade, e de novo elas são corrompidas pela propaganda, adulteradas no seu sentido próprio e original; quando, com o brutalismo parlamentar e a hipócrita ideia de uma liberdade total – defendida pela direita mais extremista, radicalizada, trumpista – nas redes sociais se pretende vender a ideia de que seremos livres porque poderemos contemplar-nos, num para-sempre digital, maquinal, imortal, sem que tenhamos de trabalhar (a IA tudo fará por nós), é ainda de condição humana que falamos e que teremos de falar.

Melhor: uma condição humana pós-humana, ou verdadeiramente «desumana», dado que a escola («skhole», isto é, suspensão da atividade, tempo de contemplação) e a universidade («universitas», o que propende ao saber universal, integrando as «scientia», os saberes) e, com estas instituições, um certo ideal de vida (com os seus tempos-mortos, contemplativos, de lazer) parece estar morrendo em definitivo. Quem poderá defender hoje que o ideal humano deve ser, como foi algures no tempo, a quietude e a contemplação? Se a vita activa até ao início da modernidade (1700, sensivelmente) foi sempre pensada por oposição à vita contemplativa (Marta e Maria, eis os dois caminhos a escolher), porque esta era nec-otium e a-skholia, mas tinha na ideia de trabalho um centro de valor, que vida é a que estamos a construir com a digitalização do humano? Uma nova fase servil da humanidade: Omnis vita servitium est, eis a retoma de um lema antigo.

Todavia, já nem há o ópio religioso a dar corpo a esta sentença cristã. O ópio do povo é agora o ecrã do estilhaçamento do eu: o sujeito tecnológico em exposição permanente e em permanente estado de excitação. Não saber como estar propenso à contemplação, estar bloqueado no pensar e, assim, no ser e no estar, eis o que criámos. O que temos vindo a formar nas gerações mais novas, na escola como na universidade, nas famílias como na política é já outra coisa: uma nova condição humana em que os «desejos superiores», os do espírito, não interessam nada e até são odiados. A nova humanidade também está para lá do que é distópico: o romance 1984 já só pode ser lido com uma nova data e título: 2084. Maria e Marta, vida ativa e vida contemplativa, trabalho e labor, isso já nada significa para os que, na sucessão de humanidades, veem que a vida só faz sentido à luz da última fase da industrialização: a nossa era hipertecnológica fez tábua rasa de tudo. Não nos iludamos: a vida activa já não é fazer a «polis», mas destruí-la. Em nome de quê? Do novo homem primário, instintivo, animal(izado), brutal, e para quem as palavras devem substituir-se pelo grito, a mentira, o que é fake, o que é IA, Chat-GPT, imediato e anti-trabalho, ditando a vida, isto é, a futilidade/ a fútil-idade.

Professor e crítico literário


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