Reinventar o socialismo |
Não há nada de errado no socialismo democrático. Não é descabido defender o multipartidarismo, as liberdades civis, as eleições livres ou a promoção da justiça social, assim como a redução das desigualdades e a igualdade de oportunidades. Não é um equívoco entender os valores humanistas como centrais, regulando o capitalismo através de um Estado Social forte. Muito pelo contrário, é imperativo que tal aconteça.
Não sendo certo que os conceitos de Esquerda e de Direita tenham acabado, é por demais evidente, no entanto, que o monopólio nacional de PS e PSD cessou, apesar dessa circunstância continuar a ser ignorada por muitos. Preferem simplesmente pensar que o mundo está a mudar, mas, na realidade, já mudou. Os tempos são outros. Contrariando a tendência multilateral, os países estão feridos pelo individualismo e torna-se obrigatório aceitar o facto de a humanidade se basear numa permanente história cíclica de reconstrução. Isso faz parte e obriga a adaptações frequentes.
As novas gerações julgam estar a viver tudo pela primeira vez, não aceitam o contrário e entendem que o passado não se repete. Não gostam de ouvir os mais velhos, pouco ou nada lhes interessa a celebração de datas históricas e, invariavelmente, preferem os líderes capazes de os entusiasmar e de corresponderem às suas expectativas imediatas de vida sem uma cansativa carga ideológica.
Neste quadro, assenta como uma luva a diabolização do socialismo, ajudada pela evolução social lenta nestes cinquenta e dois anos de democracia, deixando esse espaço político aturdido e sem reação, incapaz de se adaptar a esta nova situação e de responder ao radicalismo, assistindo sem palavras à inversão de uma larga maioria mundial para regimes autoritários.
Mesmo sabendo que a culpa não é da Esquerda democrática portuguesa, porque o mesmo sucede pelo planeta fora, o recente congresso do Partido Socialista também não contribuiu para uma inflexão de pensamento ou, sequer, para se recriar. Se formos francos, os congressos do PS nunca entusiasmaram e, se puxarmos pela memória, talvez a única exceção nos últimos anos tenha sido o Tino de Rans. É escasso, convenhamos. E esta reunião magna, onde se deveria debater o futuro, não defraudou essas expectativas. Acabou, novamente, por ser inócua, vazia de ideias e autofágica. Ninguém questionou a ausência de oposição interna ou a inexistência de outros candidatos a Secretário-Geral há duas eleições sucessivas. Para além disso, quando um dos maiores partidos portugueses, fundador da democracia, apenas se preocupa em evidenciar ciúmes por o Governo preferir acordos com outras forças políticas, algo está francamente mal.
Demonstra desconhecimento perante uma balança centrista que já não existe, falta de noção sobre quem está a crescer em número de votos e a incapacidade de aceitar a necessária travessia do deserto, como sucede noutros países europeus. O socialismo democrático não está errado, é imprescindível, mas necessita de se reinventar e de um golpe de asa. Porém, tal não acontecerá com lideranças antigas.
Escritor e Gestor Público