menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Um Estado mais simples, um país mais forte

11 0
previous day

Durante demasiado tempo habituámo-nos a conviver com um Estado que, em vez de ser uma presença útil e clarificadora na vida coletiva, muitas vezes se tornou numa estrutura pesada, lenta e difícil de compreender. Em vez de facilitar a vida dos cidadãos, a burocracia, esse conjunto de normas, procedimentos e validações criado para organizar a ação pública, acabou por gerar inércia e repetição. Aquilo que deveria aproximar o Estado das pessoas contribui frequentemente para afastá-lo de quem dele depende.

A história do Estado moderno ensinou que a burocracia desempenha uma função necessária. Garantir igualdade perante a lei, assegurar previsibilidade nas decisões e proteger os cidadãos do arbítrio. Sem regras o poder torna-se capricho e desigualdade. Mas quando as regras se multiplicam sem medida, quando o procedimento se sobrepõe ao propósito e quando o processo vale mais do que o resultado, o sistema perde o seu sentido. A burocracia deixa de ser um instrumento de justiça e passa a ser um obstáculo à vida real.

Em Portugal essa experiência é conhecida. Abrir uma empresa, licenciar uma obra, desenvolver um projeto ou tratar de um documento pode implicar uma sucessão de etapas que parecem existir mais para justificar o sistema do que para servir quem dele depende. O cidadão confronta-se com formulários repetidos, exigências inadequadas e prazos incertos. A economia sente-o de forma direta. As ideias transformam-se em projetos, mas muitos projetos não chegam a tornar-se realidade.

Os efeitos tornam-se ainda mais visíveis em situações de urgência. Após os temporais na zona Centro muitas famílias e empresas perderam as casas, os armazéns e os equipamentos. Nestas circunstâncias espera-se que o Estado responda com rapidez e simplicidade. Mas para obter apoio muitos afetados enfrentaram um verdadeiro calvário administrativo. Foram formulários sucessivos, pedidos de prova repetidos e avaliações demoradas. As decisões tardam. Quem perdeu quase tudo enfrenta um sistema complicado justamente quando precisa de soluções imediatas.

Quando as decisões públicas se arrastam não se perde apenas tempo. Perdem-se oportunidades, atrasam-se investimentos, adiam-se reconstruções e prolongam-se as dificuldades das pessoas. Um país pode ter recursos e vontade de ajudar, mas se as decisões ficam presas em circuitos administrativos longos o apoio chega tarde. A burocracia excessiva não é apenas um problema técnico. É também um problema de tempo coletivo e de confiança social.

Há ainda um efeito mais silencioso. Os sistemas demasiado complexos criam opacidade e fragilizam a confiança. Quando o processo é difícil de compreender e ainda mais difícil de atravessar instala-se a ideia de que tudo depende de atalhos ou intermediações. A confiança nas instituições começa então a enfraquecer de forma lenta mas persistente.

Reformar o Estado é por isso um desafio central para qualquer país que queira avançar com confiança e responder melhor às necessidades da sua sociedade. Não significa enfraquecê-lo nem reduzir o seu papel. Pelo contrário, significa torná-lo mais simples no funcionamento, mais eficaz nas decisões e mais próximo dos cidadãos que deve servir. Um Estado forte não se mede pela quantidade de normas que produz nem pelo número de procedimentos que exige. Mede-se pela sua capacidade de resolver problemas, de simplificar processos e de agir com rapidez e clareza quando as pessoas e as empresas precisam de respostas.


© SOL