O Congresso e o Futuro do PS

A transformação das sociedades faz-se com os moderados, não com os radicais», escreveu Daniel Innerarity. A frase é pertinente, mas insuficiente. A mudança não se faz apenas com moderação, faz-se mudando. É essa exigência que importa discutir depois do congresso do Partido Socialista, realizado no passado fim de semana, em Viseu.

O congresso não era apenas um momento de organização interna. Era uma oportunidade para definir uma orientação clara e inovadora num sistema político fragmentado, com um eleitorado mais volátil e menor tolerância à ambiguidade. Não bastava reafirmar estabilidade. Era necessário clarificar as escolhas, assumir prioridades e dar forma a uma linha reconhecível.

O que se observou foi prudente e equilibrado. Houve sinais de unidade e continuidade, mas poucas decisões com alcance estratégico. O partido reconhece que o contexto mudou, mas ainda não mostrou como pretende ajustar-se a essa mudança nem com que instrumentos pretende fazê-lo. Os partidos não perdem relevância apenas quando perdem eleições. Perdem-na quando deixam de interpretar a realidade e passam a gerir equilíbrios internos. Quando substituem a estratégia pelo compromisso permanente. Quando evitam definir posições claras e optam por adiar decisões.

É nesse ponto que começa a perda de função. Um partido que não estrutura o debate acaba por seguir o que os outros definem. Mantém presença institucional, mas perde capacidade de influência. Fica dependente da conjuntura e dos temas impostos por terceiros.

O Partido Socialista enfrenta esse risco. Não por falta de recursos ou de experiência, mas por hesitação estratégica. A centralidade política deixou de ser automática. Hoje constrói-se. Exige consistência, previsibilidade e clareza nas escolhas. O centro político continua a ser decisivo. Mas não é um espaço neutro nem uma média entre posições. É uma escolha exigente. Implica prioridades, limites e coerência. É nesse espaço que se formam as maiorias e se assegura a governabilidade com estabilidade. Para o ocupar, não basta invocá-lo. É necessário definir uma relação clara com o crescimento económico, estabelecer critérios de sustentabilidade das políticas públicas e reforçar a confiança nas instituições. Implica também distinguir cooperação de dependência e diálogo de diluição programática.

O congresso não resolveu estas questões. Indicou intenções, mas evitou compromissos concretos. Ficou entre a continuidade e a necessidade de mudança, sem fechar essa tensão. Mas a mudança não se declara. Faz-se. E faz-se mudando. Mudando práticas organizativas. Mudando prioridades políticas. Mudando a forma de relação com o eleitorado. Mudando a forma como o partido se posiciona perante um sistema político mais competitivo e menos previsível. Mudando, sobretudo, a relação entre o aparelho interno e a leitura do país real.

A história do Partido Socialista mostra que os seus momentos mais relevantes resultaram de decisões claras e de orientação definida. Não de equilíbrios indefinidos nem de soluções transitórias prolongadas. Hoje, a questão é direta. O partido tem de decidir o que quer ser neste contexto. Se quer liderar, ocupando o centro moderado, tem de se definir. Se não o fizer, outros ocuparão esse espaço com maior nitidez.

O congresso podia ter sido um ponto de inflexão. Ainda pode ser um sinal de alerta útil. Tudo dependerá do que vier a seguir e da capacidade de transformar intenções em decisões. Em política, a continuidade sem mudança não garante estabilidade. Prolonga o desgaste. Nenhum partido evita o declínio apenas com reorganização interna. Evita-o quando reconhece o momento, assume custos e muda a tempo.


© SOL