Ormuz e a urgência de uma Europa soberana

Há momentos em que a geopolítica deixa de ser um conceito distante e passa a ter impacto directo na vida de todos nós. O Estreito de Ormuz é um desses lugares: uma faixa estreita de mar, longe da Europa, mas com o poder de condicionar o preço da energia, a estabilidade económica e o quotidiano de milhões de europeus. Sempre que aquela rota é ameaçada, o impacto sente-se de imediato nas nossas economias, nos preços dos combustíveis e no custo de vida.

Perante a escalada de tensões no Golfo, a União Europeia começa a preparar planos para garantir o fluxo energético sem depender directamente dos Estados Unidos. É um sinal positivo, mas também revelador de uma fragilidade estrutural: a Europa continua a reagir às crises, em vez de as antecipar. Quando a pressão aumenta, improvisa-se uma resposta; quando a tempestade passa, regressa-se à inércia.

O problema não é novo. Sempre que uma crise internacional afecta cadeias de abastecimento, a Europa descobre, mais uma vez, a sua dependência externa. Dependemos de terceiros para garantir energia, para assegurar rotas marítimas e, em última instância, para proteger interesses que deveriam ser nossos. O Estreito de Ormuz concentra uma parte significativa do tráfego mundial de petróleo e gás, e qualquer perturbação naquela região tem efeitos imediatos nos mercados internacionais, com consequências directas para países como Portugal, que já acumulam custos elevados neste contexto.

A questão central é simples: a Europa é uma potência económica, mas continua longe de ser uma potência geopolítica. Falta-lhe capacidade de decisão rápida, unidade de acção e meios próprios para defender os seus interesses. Em suma, falta-lhe soberania efectiva. E essa soberania não se constrói com 27 políticas externas diferentes, nem com estratégias nacionais desalinhadas, mas sim com integração e visão comum.

Enquanto persistir esta fragmentação, a Europa continuará a actuar de forma lenta e hesitante. Os Estados-nação, isoladamente, já não têm escala para responder a desafios desta magnitude. Nenhum país europeu consegue, sozinho, influenciar decisivamente o equilíbrio geopolítico no Golfo. Ainda assim, mantemos uma lógica em que cada capital protege a sua agenda imediata, adiando decisões estruturais que exigiriam uma verdadeira partilha de soberania.

O resultado é um padrão repetido: dependência externa, resposta tardia e custos económicos elevados. Portugal conhece bem essa realidade, com impactos que se traduzem em menor crescimento, mais inflação e maior pressão sobre famílias e empresas. Não estamos a falar de abstracções geopolíticas, mas de consequências concretas no dia-a-dia dos cidadãos.

A resposta passa por assumir um salto qualitativo no projecto europeu. Uma verdadeira união federal, com política externa e de defesa integradas, permitiria à Europa actuar de forma coerente e eficaz. Não se trata de romper alianças com parceiros históricos, mas de deixar de depender sistematicamente deles para garantir a nossa segurança. Trata-se de ser um actor autónomo, capaz de proteger os seus interesses e de contribuir para o equilíbrio global.

O centro político europeu tem aqui um papel decisivo. Defender soberania europeia não é radicalismo, é pragmatismo. Num mundo cada vez mais instável, a autonomia estratégica não é um luxo, mas uma necessidade. Continuar a adiar este debate é perpetuar um modelo que já demonstrou as suas limitações.

O Estreito de Ormuz é apenas mais um episódio de uma realidade mais ampla. A Europa enfrenta um dilema claro: ou aprofunda a sua integração e ganha capacidade de acção, ou continuará a ser um gigante económico com fragilidades geopolíticas. A escolha não é teórica, tem consequências reais e imediatas.

Se queremos uma Europa que proteja os seus cidadãos, que defenda os seus interesses e que seja respeitada no mundo, então temos de aceitar que a soberania, no século XXI, se exerce em conjunto. Tudo o resto é continuar a pagar o preço da nossa própria indecisão.

Tiago Matos Gomes é presidente do movimento Partido Democrata Europeu e tem um artigo quinzenal no SAPO // O autor escreve com o antigo acordo ortográfico


© Sapo